Evolução espiritual de Antero

Não cabem no objetivo deste ensaio a apreciação literária das Odes, onde há versos inferiores ao lado de expressões de rítmica e pura sensibilidade, nem a reflexão sobre a natureza psicológica de certas imagens, cuja estrutura, dum modo geral, António Sérgio sondou com subtil penetração e tanto impressionaram os contemporâneos, como a estola do infinito, de arrojo audaz e provocador, nem ainda o exame analítico das fontes que lhe informaram o pensamento: baste acentuar a ideologia que o informa.

As Odes Modernas desconhecem a Natureza e a paisagem, a Mulher e o amor erótico, o Homem e os seus estados puramente subjetivos, a Sociedade no que tem de pitoresco, como a evocação do viver medieval, ou de transitório, como o cavaleirismo romântico: interiorizam e expandem sentimentos sociais, sob a luz afogueada de uma visão universal da Humanidade.

Quando deu ao prelo as Odes, não pôde dizer-se que possuía um corpo de doutrinas e muito menos um sistema coerente de ideias. Mais nutrido de crenças que de pensamentos refletidos, na sua mente confluíam conceções diversas, provenientes de leituras de fresca data e nas quais é possível estabelecer gradações sucessivamente mais compreensivas e complexas.

A nova conceção tem por objeto o mundo civil e não a universalidade do mundo natural e humano, e na consideração do mundo civil a visão dirige-se para a Humanidade e não para o localismo dos “muros da cidade”, com o particularismo dos programas políticos:

De que vale disputar o espaço estreito,

Que cobre a sombra da árvore da pátria,

Quando são vossos cinco continentes?

De que vale concentrar-se a vida toda

 Numa paixão apenas, quando o peito

É tão rico, que basta dar-lhe um toque

 Por que brotem, aos mil, os sentimentos?

(Vida. A uns políticos, 1863)

O humanitarismo é, assim, a primeira nota do novo credo, cujo universalismo fez murchar a vivacidade e os anelos do sentimento patriótico como o vivera e compreendera a geração romântica e liberal. Era para o Homem, cidadão do mundo, e não para portugueses, que dirigia a mente, de sorte que a sua inspiração deixou de sentir o encanto dos temas românticos e, principalmente, ultrarromânticos.

Por influência de Proudhon, avassalou-o a convicção da ruína, ostensiva ou iminente, das instituições fundamentais da sociedade tradicional e dos valores religiosos e políticos que as nutriam; daí, a sua poesia se converter, por um lado, em instrumento de combate à Igreja e ao sacerdócio (Pater), à Riqueza e à grande burguesia (Pobres), às disputas localmente políticas (Vida), ao poderio de “Bispos, Reis, Imperadores, Altos, Grandes e Ricos” (Carmen legis), e por outro, em pregão da inevitabilidade da Revolução como agente da transformação social e do progresso moral (Carmen legis e No templo) e da fecundidade do poder criador da “Ideia”.

Por 1863, os rasgos negativos deste ideário primavam sobre os positivos, como se depreende das poesias datadas deste ano, principalmente da que dedicou a Oliveira Martins com o título Secol' si rinuova. Talvez se não figurasse por então, com suficiente clareza, o sentido da marcha para o Futuro, mas já não tinha dúvida de que as “Cidades” e os “Templos”, “das alturas do passado” em que se encontravam, viam “o abismo do futuro”. Coerentemente, o passado surge-lhe como a ontoado de ruínas, a musa torna-se revolucionária e os versos panfletos:

Os cultos com fragor rolam partidos;

E em seu altar os deuses cambaleiam;

E dos heróis os ossos esquecidos

Nem um palmo, sequer, do chão se alteiam!

Os nossos Imutáveis ei-los idos

Como as chamas no monte...

Tronos, religiões, impérios, usos..

 Oh que nuvens de pó alevantadas!

Castelos de nevoeiro tão confusos!

 Ondas umas sobre outras conglobadas!

Sobre alicerces d'ar sociedades

Como sobre uma rocha têm assento...

E os cultos, as crenças, as verdades

 Ali crescem, lá têm seu fundamento...

(À História, 1865)

Esta visão lúgubre, a que não faltou até a repulsa do asco,

O Passado! essa larva macilenta,

Misto de podridão, tristeza e sombras,

não significa que o pensamento e alma de Antero se comportassem perante a herança do Passado com repulsa despreziva ou odienta. Psicologicamente, impedia-o a sinceridade com quem vivera as primeiras crenças; e filosoficamente, a conceção proudhoniana da lei serial, tanto ou mais do que a conceção hegeliana da dialética, ensinara-o a compreender a necessidade das vicissitudes históricas e a significação dos contrários:

Eu sei quanto se deve ao desamparo,

E às tristezas profundas,

E às saudades, que vêm, como soluços,

 Do fundo da história!

Se sei o que é Aurora — essa poesia

Do que à luz vem nascendo,

Também entendo o Ocaso e as longas sombras

 — Poesia de ruínas! —

(Flebunt euntes, 1864)

Do Passado estava mais instruído que do Futuro, do qual sabia vagamente que

O novo mundo é toda uma alma nova

 Um homem novo, um Deus desconhecido!

e que a alma informadora do mundo novo é a conceção da História como geradora do “Futuro”, alimentada pela “seiva” da “Ideia” e tendo por “chão a Humanidade”.

Se bem indagamos, foi em 1863, nas poesias Seca si rinuova e, principalmente, Aos miseráveis, que Antero pela primeira vez manifestou a conceção hegeliana da História como realização da Ideia:

É, ela quem destrói e quem inunda,

E, entre as ruínas faz chocar um ovo

Onde se agita um feto, hoje inda escuro,

 Mas que é aurora e luz porque é Futuro!

(Aos miseráveis)

A conceção acentua-se no ano imediato, apresentando-a como germe fecundante da vida,

Como o vento às sementes do pinheiro

Tal o vento dos tempos leva a Ideia

E nos campos da Vida assim semeia

As imensas florestas do porvir!

e ainda como desenvolvimento do Pensamento, que os

..... operários do futuro,

Reveladores santos da Ideia,

Que, em cada hora, vão furtando à Essência.

(Pater)

precisando-a com novos contornos, no de 1865, notadamente na poesia À História, na qual a história humana é considerada como desenvolvimento e realização da Ideia e cuja estrutura conceptual se filia em boa parte nas páginas que Vera intitulou Introduction à la philosophie de l'histoire e saíram nos Essais de philosophie hégélienne (Paris, 1864).

Não é talvez possível marcar com exatidão as páginas em que Antero deparou pela primeira vez com esta conceção hegeliana, de decisiva influição no processo mental do seu abandono do caminho da tradição e que veio a ser um dos pilares fundamentais sobre que assentou definitivamente a interpretação do acontecer histórico e a mundividência. Salta à vista que a conceção subjaz à maior parte das poesias datadas de 1864 e 1865, tornando-se manifesto, pelo exame histórico-bibliográfico, que Antero não alcançou o respetivo conhecimento pela leitura de uma tradução direta de Hegel, mas mediante resumos de expositores, à cabeça dos quais avultam, a nosso juízo, os já referidos livros do filósofo italiano Auguste Vera: Introduction à la philosophie de Hegel e os Essais de philosophie hegelienne, saídos a público em Paris, em 1864.


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