Evolução espiritual de Antero

dirá no soneto Decomposição (1863), dos Raios de Extinta Luz, e estas crenças foram o alicerce sobre que se edificou, nos anos seguintes, o ideário do “homem-novo” das Odes Modernas (1865), e serviram de viático à sua geração, “naquela encantada e quase fantástica Coimbra de há dez anos” (1862), nos precisos termos do preâmbulo das Primaveras Românticas.

Com efeito, pelos anos que Antero viveu em Coimbra, a Universidade conheceu a geração mais iconoclasta do século passado, com fisionomia própria e inconfundível entre duas gerações famosas, de alma própria, essencialmente sensíveis ao apelo de valores estéticos e, de algum modo, insensíveis aos valores ético-sociais a do Trovador (1844-1848), de João de Lemos, Serpa Pimentel, Rodrigues Cordeiro, etc., e a da Folha (1868-1873), de João Penha, Guerra Junqueiro, etc.

Dir-se-ia que nascera fadada para acender o primeiro altar votivo aos numes românticos da justiça social, no seio de uma sociedade que então gozava plenamente as delícias burguesas da liberdade constitucional desde a certeza dos rendimentos dos bens ao luar e dos papéis de crédito à segurança altiva contra as demasias e arbitrariedades de qualquer mandão. Talvez como nenhuma outra, a geração de Antero pensou as coisas em grande — coisa rara, sempre! — e vibrou com o sentimento de se pertencer ao País, de ser “o foco soberano donde tem de irradiar a luz da civilização sobre toda a nação, a molécula central da grande recomposição da vida nacional deste povo”, com a “fé viva em que todo o futuro está aqui, que Coimbra está guardada para ser a grande norma, o corpo de que o restante Portugal não será mais que a sombra, um pálido reflexo”, como o próprio Antero escreveu, num misto de seriedade e de ironia, no artigo Das Revistas de Coimbra, de 1861 (Prosas, I, 121).

O alargamento do horizonte e das ambições, contrastante com o provincianismo tradicional, procedia talvez do tonus vital com que nascera, mas deram-lhe alento o estilo político do Terreiro do Paço e, sobretudo, o teor de ideias forasteiras que torrencialmente atingiram por então Coimbra, — aquele, porque tendia a despertar a individualidade de cada um do fundo hominal de toda a gente, arrancando-a ao cilindro compressor e nivelante da massa, este, porque descobria um mundo rasgado, amplo, de coordenadas assentes no Futuro e de potencialidades ilimitadas, no qual as manifestações do pensamento surgiam como expressão de um processus imanente à evolução histórica da Humanidade.

Politicamente, vivia-se então em franco regime de pequenos partidos. Viver em tal regime é, quase sempre, moer a paciência com a ação retardadora da Administração e com a instabilidade governamental, pela inexistência de uma maioria parlamentar homogénea, mas é assistir, sempre e sem exceção de quadra ou de país, à gestação de consciências individualizadas e altivamente afirmantes e à constituição de uma plêiade de governantes capacitados, porque o Poder, em regra, tende a ser exercido por quem possua, pelo prestígio do talento ou pela idoneidade da aptidão, ascendência reconhecida para o honrar e harmonizar pessoas e interesses na efetivação concreta de objetivos determinados. É. o regime típico da Nação que não quer deixar-se absorver pelo Estado, que quer ser Sociedade e não Coletividade ou Comunidade e, por conseguinte, cônscia de que o bem-estar geral coletivo há-de ser a resultante da elevação do bem-estar dos indivíduos, e não às avessas, estabelece fronteiras entre o eu, o tu e o nós, resolve pela Família ou pelas associações livres grande parte das funções sociais e se entrega confiante à iniciativa individual, na certeza de que ao Estado não incumbe a função paternal de resolver o problema de quem quer que seja e ainda menos o de estorvar com a tutela burocrática quem o queira resolver com o suor do seu rosto.

Por isso, este regime é socialmente conservador e moralmente gerador do ser mais raro que existe, — o homem com a noção clara da sua ipsidade irredutível e do confim das suas limitações, que são, no fundo, a ipsidade dos outros e a zona impessoal dos direitos de todos. Foi esta coisa rara e supremamente precária que Portugal viu desde a Regeneração (1852) ao estabelecimento do Rotativismo, em 1873, após o longo Ministério de Fontes, talvez fatal à Monarquia da Carta outorgada, dado que nem antes nem depois possuiu em todos os departamentos da vida pública e da atividade social, sem espírito de camarilha e de nepotismo, tão digna e promissora juventude, tão notável conjunto de dirigentes civilistas e tão numerosa legião de vigorosas individualidades.

Os rapazes de Coimbra afirmando-se como esperanças de Homens, com o sentimento da plenitude hominal, quer o exprimissem na harmonia do verso ou na correção da prosa, quer o soltassem na ligeireza dos artigos de jornal ou na verbosidade dos reptos e das moções de assembleias estudantis, personificam o estilo da época; no entanto, a seiva nutriente do seu credo inovador procedia de além-fronteiras, desses seres impalpáveis, incoercíveis e às vezes tremendamente explosivos, que são as ideias. Em todas as gerações, sempre os melhores intuíram o espírito do tempo, mas em raras ele se insinuou com tanto desafogo e vibratilidade como na de Antero.

Concorreram para isso o progresso material das comunicações e o apreço unânime em que foi tida a língua francesa como expressão superior da inteligência e mensageira do pensamento universal.

Os homens públicos da Regeneração, coincidentes unanimemente na política da classe média, de que Guizot fora o prestigioso teórico e Costa Cabral, entre nós, o mais convicto e ostensivo paladino, confiantes no progresso social pela realização de melhoramentos materiais, de que o Fontismo seria expressão suprema, empreenderam a transformação do País mediante o desenvolvimento das vias de comunicação e dos meios de transporte. O tráfego das mercadorias e a circulação do capital torna-se o moto da Política. Das várias realizações então levadas a cabo, tendentes a acelerar e a modificar o ritmo da vida económica, como cumpria à hora alta do signo dominante de Mercúrio, importa ao nosso ponto de vista a construção do caminho de ferro do Norte, entre Lisboa e Porto, inaugurado em 7 de Junho de 1864.

A facilidade de comunicações e a competição de novos livreiros, Orcel à frente, de mais rasgo e atividade que os seus predecessores timoratos, quando não vigiados, fizeram com que Coimbra abrisse de par em par as janelas da curiosidade pelo que se publicava além--fronteiras e nos escaparates da Calçada se ostentassem os frontispícios mais atraentes da última hora.

Com pequeno intervalo divulgavam-se e discutiam-se as novidades literárias. Paris, que conservava a reputação legada pelo século XVIII de ser o meridiano da Inteligência, o que fez crer à quase totalidade dos Portugueses que Deus e o Diabo somente se exprimiam em francês, inundava então o burgo universitário com os livros de Michelet, Proudhon, Renan, Edgar Quinet, Victor Hugo, Leconte de Lisle, Taine, Littré, e com as traduções de Heine, Feuerbach, Goethe, Buchner, Hegel, etc.

Era um mundo novo que surgia diante destes jovens, que tiveram, como raras gerações, as pupilas abertas e os ouvidos atentos. Este mundo novo tinha uma fisionomia de traços nítidos de modelação vincada, e a sua vida interior era exuberante, de virtualidades indefinidas. Estar, devir, emergir e advir eram os seus tempos e coordenadas fundamentais, em contraste com as do mundo tradicional do ser e do permanecer.


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