3. Correntes ideológicas. Henriques Nogueira. Socialismo, federalismo e unitarismo

E germinal foi, na realidade; porém, com a morte prematura de Henriques Nogueira, aos 33 anos (23 de Janeiro de 1858), a doutrinação republicana entrou, durante dez anos, em eclipse. Para o geral dos homens ilustrados, a República, na ordem teórica, impunha-se como regime perfeito, todos admitindo com Tocqueville, cuja Democracia na América (1833) teve, depois de 1848, uma extraordinária difusão, como anos atrás as Réflexions sur les Constitutions et les Garanties (1814) de Benjamim Constant, que a democracia era o signo universal e irresistível da época; mas nem o estado da Europa nem o desenrolar da política interna estimulavam a doutrinação.

A queda da Segunda República em França trouxe algumas desilusões, e internamente a política de tolerância e de respeito pelos princípios da Carta provou uma vez mais que a liberdade é nos povos civilizados a única garantia sólida da paz e da conservação social. O decreto de 29 de Abril de 1858, determinando a extinção gradual da escravatura, por forma que em igual dia de 1878 a escravidão, franca ou dissimulada, cessasse completamente em todas as latitudes do território português; a abolição do beija-mão (5 de Maio de 1858); a desamortização dos bens de raiz pertencentes às igrejas e corporações religiosas (4 de Abril de 1865); a sedução do progresso e dos melhoramentos materiais; o exercício pacífico do sistema representativo; a bondade e a inteligência de D. Pedro V e a bonomia burguesa de D. Luís — tudo concorreu, durante esta década, para abafar as vozes dissidentes e moderar a já de si tímida propaganda jornalística de O Futuro (1858-1860), o primeiro periódico de Elias Garcia, A Discussão (1860) e A Política Liberal (1860), dirigida por Gilberto Rôla, Sousa Brandão e Elias Garcia. República e utopia tornaram-se dois termos idênticos na significação, existindo «apenas em raros corações de poetas um republicanismo platónico» (Vieira de Castro, A República [18681). Quer-se melhor prova que o centro fundado em 1864 no Pátio do Salema, em Lisboa, dentre outros, por Oliveira Marreca, Elias Garcia, Gilberto Rôla, Saraiva de Carvalho, Bernardino Pinheiro, etc., conhecido pelo Clube dos Lunáticos?

Correligionários, adversários e indiferentes qualificavam identicamente a ação idealista destes homens, a qual parece ter-se desenvolvido por vezes sob o mistério do segredo.

Aclimatando em Portugal a ideologia de 1848, Henriques Nogueira associara, como vimos, a reforma social à reforma política.

O republicanismo, que era o sonho da vida cândida e humanitária, não se esquecera das «classes laboriosas», ou, se se quiser, do socialismo como sinónimo do bem-estar moral e material. Durante esta década, a face puramente política desta atitude velou-se, mas em compensação surgiu com algum relevo a feição humanitária e social, sob a forma do associacionismo e do mutualismo.

Duas associações se destacam — a Associação dos Operários, e o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas — e com elas o nome de Sousa Brandão. A velha ideia de grémio ou corporação de ofícios, que o liberalismo encontrara e suprimira em 1934, transformara-se com um sentido novo, cuja primeira manifestação, em rigor, foi a Associação dos Operários (1850), pugnando pelo direito ao trabalho, e cujos estatutos estabeleciam um banco operário para transação de créditos e criação de novas indústrias.

Fugaz a sua vida, apesar de ter um órgão na imprensa, O Eco Operário, colaborado principalmente por Sousa Brandão, Lopes de Mendonça e Vieira da Silva, extinguiu-se em 1852 para dar lugar ao Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas, que foi considerado oficialmente como o organismo representativo do operariado depois que Rodrigues Sampaio alcançara a aprovação dos estatutos (1853).

Operários, burgueses, intelectuais e políticos colaboraram solidariamente na vida do Centro, sob a inspiração do romantismo social e humanitário. A ação do Centro nada teve de revolucionário até 1872, isto é, até à primeira invasão do marxismo, limitando os seus objetivos à propaganda do associacionismo e mutualismo, ao aperfeiçoamento dos métodos de trabalho, à difusão do ensino elementar e técnico, à criação de asilos para inválidos, etc. A sua iniciativa mais ousada, porventura, registou-se em 1859, quando representou ao governo no sentido da libertação da terra e da abolição das instituições vinculares.

Sob a acalmia política e a obliquidade da ação social humanitária deste decénio (1858-1868), a juventude, sobretudo em Coimbra, formando-se intelectualmente no repúdio dos valores tradicionais, preparava-se para lançar no espírito público os germes de novas inquietudes e de novos ideais. Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga simbolizam as diretrizes do espírito novo, cujas manifestações coincidem com a Revolução espanhola iniciada em 1868, com a Comuna de Paris (1871), a primeira revolução proletária, e com o advento da República em França. A mensagem de Henriques Nogueira conquista então um sentido novo de atualidade, sendo em torno das ideias que ele visionara — República, Socialismo e Federação —, que durante a década 1868-1878 se vão agitar as grandes dissidências e as propagandas entusiásticas.

Dos três grandes espíritos, que presidiram ideologicamente, à mentalidade da segunda metade do século XIX, nenhum como Antero, viveu mais intensa e profundamente a inquietude revolucionária.

A sua biografia começa em 1858, ao inscrever-se na Faculdade de Direito de Coimbra, porque é a partir de então que o conflito, que as suas ascendências hereditárias suscitavam, se torna consciente pela leitura e pela reflexão. Num ensaio sobre as Meditações, de Lamartine, publicado em 1860, aos 18 anos, Antero escreveu que, «não obstante [...] alguma exageração no sentimentalismo e um errar de imaginação, a que por vezes falta a solidez do pensamento, as Meditações serão sempre a admiração do indiferente, o enlevo do crente e um conforto para os que se debatem no ecúleo da dúvida». Pela primeira vez se nos depara, na aurora da virilidade, a palavra fatal cujo curso cambiante o levará à angústia e ao desespero, irmão do de Kierkegaard. Este «ecúleo da vida», nos anos imediatos, cravou-se profundamente na sua alma em formação, dilacerando a paz interior e a estabilidade das suas crenças religiosas. É que durante os anos de 1860-1865 a curiosidade insaciável pusera-o em contato com o mundo ideal que se descobria nos escritos de Michelet, de Proudhon, de E. Quinet, de Renan, Taine, Littré, Victor Hugo e de Vico, Heine, Goethe, Feuerbach e Hegel.

Neste mundo o que mais o impressionava então era a atitude crítica, a ideia de evolução e a confiança na ciência e no progresso da humanidade. O panorama do mundo novo, tão diverso do mundo dos vintistas e liberais, exortou-o naturalmente à revisão da ideologia romântica, e mais do que revisão, oposição determinada.

Ao patriotismo exaltado dos românticos, opunha o amor da humanidade; à religiosidade tradicional, a filosofia idealista, impregnada de hegelianismo; ao culto da individualidade, a confiança na capacidade das massas e a fé na realidade do espírito universal; à estabilidade das organizações sociais, a conceção da história, inspirada em Michelet, como teatro da luta da liberdade contra a fatalidade, e, para além destas mutações profundas, a crença de que a humanidade, numa viragem do seu curso, caminhava para um novo período. Quando concluiu a formatura, em 1864, a sua ideologia estava formada, e esta ideologia, edificada sobre imensas ruínas, era, de um modo geral, a da sua geração, da qual disse com verdade a W. Storck que fora «a primeira que em Portugal saiu decidida e conscientemente da velha estrada da tradição». A partir de então nada se passa no seu espírito que seja objeto de anedota. É que Antero passa a conceber a vida como missão — missão revolucionária sem dúvida, mas também missão de reformador moral e justiceiro. Luta e reforma serão, pois, os signos do seu destino, ao princípio luta contra a literatura ultrarromântica, depois luta contra o conservantismo político e intelectual e por fim luta consigo próprio, contra a doença que o tortura e contra o desespero e angústias filosóficas. A primeira ofensiva, que marca uma data na história literária, foi a publicação em 1865 das Odes Modernas. O seu nome ultrapassa então o círculo dos condiscípulos e admiradores de Coimbra, para se tornar conhecido em todo o país. Neste livro, o poeta e o panfletário confraternizam. A sensibilidade convencional do ultrarromantismo dá lugar à inteligência.


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