IV. Difusão do ensino das humanidades nos países ocidentais

Na Faculdade de Artes lovaniense professava-se, desde os meados do século XV, o estudo das letras clássicas, lá tendo ensinado Rodolfo Agrícola e formado definitivamente a sua mentalidade de humanistas, dentre outros, Erasmo, Adriano Floriszoon, o futuro papa Adriano VI, e Luís Vives. Radicando nesta tradição e como seu remate, atingiu notável significado e influência o Colégio das Três Línguas (ou Buslidiano), fundado em 1517 por Jerónimo Busleiden, em ordem à explicação e ao estudo dos «escritores cristãos, dos autores morais e de outros julgados dignos de aprovação, nas três línguas, latina, grega e hebraica» — o que importava o respeito pelos textos sagrados, suscetíveis somente da expurgação de erros de copistas.

Nos territórios de língua alemã o Humanismo não alcançou a amplitude social e a diversificação cultural dos países latinos, mas a reorganização do ensino com base nas humanidades foi, de certo modo, acompanhada da fundação de novas universidades e seguida da instituição de ginásios. Assim, é significativo que no decurso de vinte anos tivessem surgido as Universidades de Basileia (1460), Friburgo em Brisgóvia (1471), Ingolstadt (1472), Treves (1472), Tubinga (1477) e Mogúncia (1477), cuja evolução, sem as raízes autónomas e corporativas das Universidades dos séculos XIII e XIV, se operou no sentido da subordinação às autoridades estatais; e no que r6peita aos ginásios, cuja designação começou a empregar-se pelo final do primeiro quartel do século XVI, não é menos significativo que viessem a ser as escolas humanistas de ensino secundário, características dos países germânicos.

O plano de estudos ginasiais constituiu-se em substituição do plano medieval das «artes», designadamente com a introdução do estudo da língua grega e, mais tarde, nalguns ginásios, a hebraica, com a orientação da Retórica no sentido da formação literária, que na escola municipal de Nuremberga, no final do século, teve por objeto a Poesia e a Eloquência, e com o desenvolvimento do ensino do quadrívio, especialmente da Matemática. As escolas de Basileia, de Friburgo, de Estrasburgo e, principalmente, a de Schlettstadt, na Alsácia, foram das primeiras a acolher, nos meados do século XV, a didática da nova formação; na de Schlettstadt se instruíram alguns dos mais antigos humanistas alemães, dos quais sobressaem Beato Renano e Jacob Wimpheling.

Como que anunciado por mestres itinerantes, que em lições eventuais ou cursos breves de «Poesia» e de «Eloquência» deram a conhecer o teor do novo ensino, o estudo das humanidades entrou nas Universidades pelos finais do século XV, embora a reorganização do sistema escolar se operasse mais tarde, depois da Reforma luterana, que, aliás, foi, de início, hostil ao Humanismo.

Cabe à Universidade de Viena de Áustria a prioridade na introdução do novo ensino, o qual se estendeu ulteriormente às universidades de língua germânica, não sem vicissitudes, aliás, pois se algumas, como as de Basileia, Friburgo em Brisgóvia e Heidelberg, reorganizaram o quadro de estudos com base nas três línguas sábias, outras houve, como as de Erfurt e de Colónia, em que as Faculdades maiores, especialmente a de Teologia, lhe opuseram entraves. Da oposição, ficou testemunho famoso nas Epístolas dos homens obscuros (1516), nas quais, dentre outros objetivos, se fez o processo pedagógico dos manuais tradicionais — o que, de resto, outros mestres e humanistas, como Roberto Gaguin e Erasmo, também fizeram. Não obstante, à data da Reforma luterana, o ensino das humanidades tornara-se extensivo, nos territórios germânicos, a todas as Faculdades de Artes e ao conjunto das escolas catedrais.

A despeito das divergências individuais, o humanismo germânico manteve a finalidade ético-religiosa, adquiriu a tendência filológica, de investigação de conhecimentos relativos à expressão do pensamento, e produziu-se principalmente como atividade escolar, pela ação de eruditos e de letrados, sem participação, como na Itália e, em parte, na França, de largos círculos de opinião. Como diz Otto Willmann, o Humanismo suscitou na Alemanha muita aprendizagem e pouca formação; no entanto, é de observar que a reorganização do ensino das «artes» foi mais vasta do que no comum dos países latinos, por ter abrangido logo de início, mormente na Universidade de Viena de Áustria, as disciplinas do quadrívio, em condições que anunciam, de algum modo, a substituição das conceções medievais da Universitas magistrorum et scholarium e do Studium generale, como sistema de provas e graus, pelo de Universitas scientiarum.

A instauração do ensino das humanidades na Inglaterra está inicialmente vinculada à ação de mestres que se haviam instruído na Itália, designadamente William Grocyn, que ensinou o grego em Oxford (1488), e Tomás Linacre, helenista e médico, fundador do Royal College of Physicians, tradutor de Galeno e autor de uma gramática latina (De emendata sctructura latini sermonis libri sex), devendo-se em boa parte a sua consolidação e ulterior desenvolvimento ao magistério de Erasmo e de Luís Vives e ao patrocínio de algumas individualidades, designadamente o cardeal Wolsey, Tomás Morus, o autor da Utopia, chanceler de Henrique VIII, e João Fisher, bispo de Rochester e chanceler da Universidade de Cambridge.

Em Oxford, onde chegou em 1497, Erasmo concorreu poderosamente para que se radicassem os studia humanitatis, de cujo ensino se tornou centro significativo o Colégio de Corpus Christi, onde aliás Luís Vives ensinou (1523) o latim.

Em Cambridge, o estabelecimento das disciplinas de humanidades teve a proteção decidida do chanceler da Universidade, João Fisher, manifesto no convite a Erasmo para ensinar a língua grega (1510-1513) e na fundação do Colégio de São João, no qual instituiu leitorados e bolsas para o estudo do grego e do hebreu.

Em Londres, a Escola de São Paulo, fundada (1510) pelo decano da catedral, João Colet, que havia sido instruído por Tomás Linacre nas línguas sábias, foi o centro inicial do estudo das humanidades. Estimulado, porventura, por Erasmo, Colet instituiu o estudo das línguas e das literaturas grega e latina, determinando que o respetivo ensino unisse a eloquência dos melhores escritores clássicos à sabedoria dos autores cristãos que escreveram em latim.

A instituição da Escola de são Paulo estimulou a fundação de escolas análogas, fundamentalmente de objetivo gramatical. William Lily (1468- -1522) foi o primeiro diretor e mestre da escola londinense (1512-1522), para cujos alunos redigiu uma gramática latina elementar, De octo partium constructione (1513), que dois anos mais tarde Erasmo corrigiu e publicou com o título de Absolutissimus de octo orationis partium constructione libellus correctus ah Erasmo cum praefatione J. Coleti (1515), e logrou larga difusão, sendo adotada por largo tempo no comum das escolas inglesas.

O estudo das humanidades persistiu com notável constância, concorrendo como fundamental elemento formativo da gentry e, portanto, da classe dirigente.

Em França, a assimilação do espírito da Renascença, que se intensificou após a expedição de Carlos VIII (1494) a Itália, despertou novos caminhos e novas expressões da atividade literária e científica, mas a reorganização do ensino com base nos studia humanitatis operou-se relativamente tarde e não sem entraves e oposições.


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