IV. Difusão do ensino das humanidades nos países ocidentais

Em Portugal, as primeiras manifestações de apreço pela formação literária humanista estão ligadas à escolaridade de alguns jovens portugueses, que no decurso da segunda metade do século XV se instruíram na Itália, especialmente em Florença, com Angelo Poliziano, mas a reorganização do ensino com base no estudo das humanidades foi relativamente tardia, o que não obstou a que se tornasse profunda, como testemunha a língua literária quinhentista, que se enriqueceu com numerosos vocábulos de raiz clássica e se depurou com a elegância do estilo, que os autores clássicos insinuavam como expressão do bom gosto.

Não são suficientemente conhecidos o começo e a marcha da substituição da didática tradicional do latim, que, como em Salamanca, teve nos finais do século XV por compêndio fundamental a Gramática de Pastrana; não obstante, é de crer que cabe à Universidade de Lisboa a iniciação desse movimento, cuja primeira manifestação ostensiva parece ter sido a publicação em 1516 da Nova Grammatices... Ars, de Estêvão Cavaleiro, influenciado, porventura, pelo exemplo de Nebrija. A partir de então, mormente após o regresso de «bolseiros» e de particulares que haviam estudado em Salamanca, em Paris e em Lovaina, a renovação do ensino operou-se extensa e progressivamente no conjunto das escolas. A «Oração pública» (Oratio pro rostris), que em 1534 André de Resende proferiu na abertura do ano lectivo da Universidade de Lisboa, de certo modo precursora da «oração de sapientia» estabelecida pela reforma pombalina da Universidade, é já clara expressão do triunfo da didática dos studia litterarum em ordem à eloquência. Nela enaltece o estudo do grego e especifica o sentido e a função das diversas disciplinas, da Gramática à Teologia, em termos análogos aos do comum dos didatas não paganizantes das humanidades, em particular de Luís Vives. Nas demais instituições docentes, a situação não era diferente. Assim, das escolas de Santa Cruz de Coimbra, reorganizadas anteriormente a 1535 por Frei Brás de Barros (1484-1559), diz um contemporâneo que nelas era «opróbrio falar, salvo em a língua romana ou grega»; é o ensino das humanidades que singulariza o Colégio dos Jerónimos que em 1535 Frei Diogo de Murça fundou em Penha Longa (Sintra), trasladou em 1537 para Santa Marinha da Costa (Guimarães) e em 1543 para Coimbra, de cuja Universidade era então reitor, bem como a escola latina de Braga, fundada em 1537, e para cujos alunos é de crer que o humanista flamengo Nicolau Clenardo tivesse impresso as Institutiones Grammaticae (1538).

Num plano mais extenso, mas condizente com o desenvolvimento progressivo do novo teor do ensino, foi levada a cabo a reorganização da Universidade tradicional, cuja trasladação de Lisboa para Coimbra, em 1537, equivaleu a nova fundação, e se instituiu nesta cidade o Colégio das Artes, inaugurado solenemente em 21 de Fevereiro de 1548, proferindo a oração de abertura, De liberalium artium studis, Amoldo Fabrício. Organizou-o, e foi seu primeiro principal ou reitor André de Gouveia († 9 de Junho de 1548), que de Bordéus, onde organizara por encargo do Conselho Municipal desta cidade (1534) o Colégio de Guyenne, trouxe consigo esclarecidos mestres estrangeiros para o ensino literário e científico das disciplinas de «artes». O seu quadro inicial de estudos, segundo o regimento de 16 de Novembro de 1547, era constituído pelas classes de ler, escrever, declinar e conjugar (três regentes), Gramática, Retórica e Poesia (oito regentes), Grego, Hebraico e Matemática (um regente cada) e de Artes (três regentes), em cuja expressão se deve entender o estudo de obras de Aristóteles.

André de Gouveia organizara o Colégio de Guyenne sem ter em consideração as crenças religiosas dos mestres e dos alunos, tudo indicando que manteve este critério na organização do Colégio das Artes. A estruturação inicial foi efémera, pois em 1555, após várias vicissitudes, foi mandado entregar à Companhia de Jesus. Concebido principalmente para a formação pela instrução e não para a formação pela e para a valoração, a sua primeira organização é como que a réplica portuguesa às instituições similares que o Humanismo suscitou, singularizando-o a largueza de vistas do seu regimento, a ordenação e quadro de estudos e a relativa autonomia em relação à Universidade e à autoridade eclesiástica.


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