Capítulo VII- A reforma protestante e o ensino. atividades e conceções pedagógicas de Lutero, Melanchton, Trotzendorf e João Sturm

Por outra via influiu ainda Lutero na educação da juventude, assim no seio das famílias, como nas escolas: pela tradução alemã da Bíblia, pelos Catecismos (1529), grande e pequeno, e pelos Cânticos.

Filipe Melanchton  (1497-1560) é considerado na Alemanha reformada, como o fora Rabão Mauro (c. 780-850) nos primórdios da Germânia católica, o Praeceptor Germaniae, pela sua atividade de reorganizador das instituições escolares, de reformador do magistério, de didata e de pedagogo. Doutorado em Artes (1514) na Universidade de Tubinga, foi, aos vinte e um anos, por indicação de Reuchlin, mestre de grego na Universidade de Witenberg, onde logo proferiu a oração de abertura De corri gendis adolescentium studiis, com vista à reforma dos estudos, e a fama do seu saber e o atrativo do seu talento docente lhe granjearam grande reputação e numerosos alunos.

Convencido do valor insuperável dos monumentos literários da Antiguidade clássica e da eficiência formativa das litterae humaniores, entendidas em sentido ético-cultural e não apenas no aspeto erudito ou estetizante, chamou a si a missão de conciliar as exigências docentes da Reforma com os estudos de humanidades. Este foi o anelo de outros reformados, notadamente de Ecolampádio, no Alto Reno, de Zuinglio e de Calvino, na Suíça; a todos, porém, sobreleva Melanchton.

Como didata, redigiu uma Gramática grega e uma Gramática latina, de larga voga, atingindo esta última cinquenta e uma edições, bem como manuais para o ensino ginasial e universitário, designadamente de Retórica, de Dialética, de Física, de Psicologia, de Moral e de Dogmática. Esta atividade, que testemunha a solidez e a variedade da ilustração de Melanchton, tem raízes políticas e ético-religiosas, nutrindo-se, substancialmente, da conceção de que a especialização das profissões liberais, para não degenerar em presunção, tem de assentar no conhecimento geral, enciclopédico, das disciplinas literárias e científicas, embora com maior quota daquelas que destas.

No De miseriis paedagogorum exprimiu Melanchton o juízo de que a situação lamentável a que haviam chegado muitas escolas procedia da carência de uma organização escolar conveniente e da aplicação de maus métodos. Coerentemente com esta ideia, o seu empenho principal consistiu em promover a reorganização do ensino ginasial e universitário em função das exigências da Reforma e do ideal humanista.

No ensino ginasial, a atividade reformadora de Melanchton caracteriza-se principalmente pelo predomínio do latim no plano de estudos, em termos de escola latina de estrutura humanista. Neste ramo de ensino, Melanchton afirmou-se como mestre e como organizador. Como mestre, é de notar a schola privata, que, tempos depois da sua nomeação para a cadeira de grego da Universidade de Witenberg, instalou na sua própria casa e manteve durante dez anos.

O plano docente desta schola, que sempre funcionou com limitado número de alunos em ordem à individualização do ensino, assentava fundamentalmente na aprendizagem da língua latina com objetivo propedêutico, isto é, de preparação para o estudo desenvolvido das Artes. Os alunos começavam pelo estudo do latim, em ordem ao conhecimento cabal (non multa sed multum), assimilando autores, especialmente Terêncio, praticando a conversação, redigindo composições em prosa e verso e recitando comédias; o grego era estudado elementarmente, no final do curso, sendo Eurípides o autor preferido. O ensino da Religião, da História, da Matemática e das Ciências não tinha disciplinas próprias no plano de estudos, mas ministrava conhecimentos gerais destas matérias com base em textos latinos.

A fama da schola privata foi grande e a sua influência logo se fez sentir na escola latina de Eisleben, fundada pelo conde de Mansfeld em 1525, e cuja organização é atribuída a Melanchton. Esta escola, cuja duração foi curta, teve por objetivo o estudo da religião e da língua latina, que era ensinada em três classes, ministrando-se aos melhores alunos da terceira classe os rudimentos da língua grega; nela se dedicava uma hora diária à música e ao canto, e se completava o ensino literário com alguns conhecimentos científicos (Mathemata et totus orbis artium).

A fundação, em 1526, de uma escola média (Obere Schule) em Nuremberga, para cuja direção fora convidado, em cujo regimento colaborou ativamente e em cuja inauguração proferiu a Declamatio laudatória, marca novo passo da atividade organizadora de Melanchton. Esta escola seguia-se à escola latina elementar, repartindo-se os alunos em quatro classes, das quais a primeira se destinava ao estudo da Dialética e da Retórica, a segunda, principalmente à leitura de poetas e à composição em verso, a terceira, à Matemática, e a quarta, à língua grega.

As conceções de Melanchton acerca do ensino nas escolas latinas, ou ginásios, foram como que condensadas no plano de estudos para as escolas da Saxónia (Sãchsisher Schulplan), o qual faz parte das Instruções aos visitadores dos pastores da Saxónia do Eleitor, que redigiu em 1528 de acordo com Lutero, designadamente com um regimento que este organizara em 1524.

Segundo este Plano, considerado o primeiro regimento escolar da Reforma e que exerceu grande influência, pois serviu de modelo a muitas escolas latinas da Alemanha do século XVI, o ensino tinha por base a aprendizagem do latim e da religião. A fim de estabelecer a continuidade, os alunos eram repartidos em três grupos, ou classes. O primeiro, era constituído pelos que aprendiam a ler e a escrever, para o que se serviam de um abecedário latino, que Melanchton redigiu, da Arte de Donato e dos Disticha de Catão; o segundo, pelos estudantes de Gramática (etimologia, sintaxe e prosódia), que se exercitava na leitura de Esopo, dos Diálogos de Pedro Moselano, e de trechos dos Colóquios de Erasmo e das Comédias de Terêncio e de Plauto; e o terceiro, pelos que aprofundavam o estudo da sintaxe e da versificação, se iniciavam no da Dialética e da Retórica, e praticavam a conversação e a composição latinas, tendo como autores preferidos Virgílio, Ovídio e Cícero. Era vedado aos mestres destas escolas ensinar outra língua que não fosse a latina e sobrecarregar os alunos com trabalhos de casa.

No ensino superior, cuja situação docente criticou, também se fez sentir a influência de Melanchton, mormente na introdução das humanidades e da erudição clássica nas Universidades que aderiram à Reforma, notadamente Witenberg, Heidelberg e Tubinga, e na organização das novas Universidades de Marburgo, de Konisberga e de Iena, segundo planos por ele propostos. Em todas estas Universidades se produziram modificações de estrutura e se introduziram novas disciplinas e textos, com particular acolhimento da erudição clássica; sob este aspeto é significativa a renovação operada na Universidade de Witenberg, na qual, além do grego, de cuja cadeira Melanchton era titular, se passou a ensinar o hebraico e a Matemática, se explicaram autores, como Quintiliano e Plínio, se relacionou o estudo da Medicina com os escritos de Galeno e Hipócrates, se suprimiu o estudo do Direito Canónico e se substituíram, no estudo da Teologia, os autores escolásticos pelos textos da Escritura e de Padres da Igreja, especialmente Santo Agostinho.

A ação reformadora e de organização do ensino empreendida por Melanchton foi orientada por algumas conceções pedagógicas e didáticas, que lhe deram unidade e constância. Pedagogicamente, avulta a exigência de uma cultura geral, de letras e de ciências, como condição prévia da especialização das profissões liberais e da formação sem presunção; e didaticamente, a conveniência do estudo conjugado do latim e do grego, não só em ordem ao estudo cabal do Evangelho como à perfeição literária. Atribuiu, por isso, importância capital ao estudo da Gramática, insistindo em que desde a meninice se estudassem as regras gramaticais gerais, como condição necessária ao estudo ulterior da sintaxe e da prosódia; e bem assim, reconheceu a utilidade da prática de exercícios de memória, da composição literária (exercitio styli) e da versificação. A declamatio, isto é, o discurso latino elegante, e o verso latino perfeito, deviam constituir o objetivo da educação literária apurada.


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