Descartes e a cultura filosófica portuguesa

Abundam no vocabulário cartesiano as expressões tipicamente escolásticas, como por exemplo objectum materiale et formale, distinctio realis et modalis, substantia completa et incompleta, praedicatio univoca et analogica, etc., mas mais importante que o emprego das palavras é a utilização das respetivas ideias.

Foi Freudenthal quem observou pela primeira vez, em 1887, na famosa memória sobre Espinosa e a Escolástica, que só a física cartesiana merecia que a julgássemos radicalmente nova; as demais lucubrações filosóficas de Descartes, designadamente sobre a conceção do tempo, e as teorias dos elementos e qualidades dos corpos, de Deus, dos seus atributos e das provas da sua existência, da criação e da conservação do Mundo, da substância e respetiva relação com os acidentes, das ideias inatas e modos de conhecimento, dos estados ativos e passivos da alma, da relação da vontade com o entendimento e, finalmente, as opiniões sobre a religião e respetivas relações com a filosofia, não eram totalmente alheias à influência escolástica.

Quando Freudenthal lançou tão ousadas afirmações dominava ainda o conceito de Descartes haver instaurado uma filosofia sem precursores nem raízes no passado; hoje, após os trabalhos de numerosos investigadores sobre a génese do cartesianismo e respetivas relações com Santo Agostinho, a Escolástica e alguns pensadores da Renascença, especialmente Campanella, talvez se haja caído no exagero contrário, e cometido o feio atropelo de confundir a procedência original dos fatos, que quase sempre se tornam património comum, com a atividade mental que lhes dá significação e relevo. Em tão vasta, complexa e subtil matéria interessa-nos apenas, de momento, rastrear a possível influência da literatura filosófica de autoria portuguesa.

A primeira, que logo ocorre depois do que brevemente dissemos da escolaridade de Descartes em La Flèche, cabe aos escolásticos de Coimbra.

Possuiu Descartes uma admirável e exemplar confiança no valor da investigação científica. A sua obra de reformador não era viável, nem se compreenderia sem ela; para a provar, descendo dos pressupostos gerais e dos votos confiantes da sexta parte do Discurso à exemplificação concreta, basta apenas que atentemos no tratado dos Meteoros, publicado em 1637 juntamente com a Dióptrica e a Geometria como testemunho do êxito fecundo das ideias anunciadas no Discurso do Método, seu prefácio e manifesto.

Há neste tratado de meteorologia, cuja intenção dir-se-ia ser a dissipação de terrores e superstições tradicionais, algumas teorias antiquadas; mas não poderá esquecer-se nunca a explicação exata do arco-íris, tornada possível pelo conhecimento que Descartes logrou do fenómeno da refração. Há, pois, nos Meteoros uma atitude científica e algumas explicações que merecem integralmente o apelativo de modernas; e no entanto é neste tratado que se torna por assim dizer tangível a influência dos Conimbricenses, pois basta confrontá-lo com os Commentarii in libros Meteororum Aristotelis, de Manuel de Góis, para que ressalte o paralelismo das matérias.

Descartes alterou a ordem sob a qual tradicionalmente se dispunham as matérias, excluiu da meteorologia o estudo dos terramotos e a explicação dos cometas, por serem corpos celestes e não fenómenos sublunares, como afirmava a física escolástica, e repudiou a divisão das cores, defendida por Manuel de Góis, em verdadeiras e aparentes; não obstante, o confronto depara-nos a impressionante correspondência entre os assuntos do comentário do escolástico coimbrão e os discursos cartesianos acerca Des vapeurs et des exhalaisons; Des tempêtes, de la foudre et de tous les autres feux qui s'allument en l'air; De l'arc-en-ciel; Des vents; Des atues; De la neige, de la pluie et de la grêle. A diferença no plano e distribuição dos fenómenos resulta da circunstância, honrosa para o saber cartesiano, do filósofo haver repudiado o critério escolástico-aristotélico, que os distribuía segundo os quatro elementos, classificando-os portanto, em ígneos, aquosos, terrestres e aéreos; sem embargo, Descartes manteve a noção tradicional de meteoros como fenómenos sublunares — quae in sublimi mundi sublunaris regione oriuntur.

Esta influência, notada pela primeira vez pelo Sr. E. Gilson, sábio professor da Sorbonne e eminente autoridade em matéria cartesiana e na história da filosofia medieval, verifica-se, cumpre não o esquecer, no plano externo e programático, que não na estrutura íntima das explicações, pois Descartes, ao contrário dos Conimbricenses, funda-as nas «longues chaines de raisons, toutes simples et faciles», e tão adequadamente que dir-se-ia ser a nova meteorologia a exemplificação prática da terceira regra do seu método: «conduirepar ordre mes pensées, en commençant par les objects les plus simples et les plus aisés à connaitre, pour monter peu à peu, comine par degrés, jusqu'à la connaissance des plus composés; et supposant même de l'ordre entre ceux qui ne se précèdent point naturellement les uns les autres».     

Outras influências existem, todavia, de cunho mais ou menos acentuado, quer sobre matéria de fato, já positivas, como a referência à estrela observada em 1572 no signo da Cassiopeia, já negativas, como o repúdio da opinião dos Conimbricenses acerca do Sol ser maior que as Fixas, quer sobre matéria filosófica, as quais parecem atingir o cerne de algumas conceções cartesianas fundamentais. Dir-se-ia estarem neste caso a explicação da imaterialidade da alma pela indivisibilidade da sua essência e, quiçá, pelo exercício do pensamento puro, e a teoria da divisibilidade indefinida da substância extensa. Se esta teoria encontra, porventura, a sua interpretação auxiliar em certo passo dos Comentários de Manuel de Góis à Física, aquela explicação parece dever remontar-se sem menosprezo de outros textos, ao Comentário do mesmo Conimbricense ao De anima, do Estagirita.        

1 Gilson observa que «cette remarque a pour but d'éliminer l´explication qui consisterait à faire de cette étoile une comète».

«Porém, onde a influência surge mais transparente é na elaboração da teoria do método e na explicação dos movimentos do coração.       

Expõe Descartes na regra V das Regulae ad directionem ingenii a noção de método como ordem e disposição, isto é, a redução do complexo ao simples, procedendo-se «a facilioribus ad difficiliora», e este preceito, que mais tarde no Discurso do Método irá ter uma expressão mais simples e bela, recorda a redução exposta por Pedro da Fonseca nas Institutiones dialecticarum, naquele passo em que o Aristóteles Conimbricense examina longamente a ordem dos argumentos na dialética, no ensino, na refutação e na discussão.          

Precisou e alargou Descartes o conceito de dedução, cujo tipo característico os escolásticos restringiam ao silogismo, fundando-o, ao contrário destes, não apenas na hierarquia da extensão dos conceitos, mas acima de tudo na simplicidade, isto é, no encadeamento das razões que se implicam — ces longues chaines de raisons, toutes simples et faciles, dont les géomètres ont coutume de se servir pour parvenir à leurs plus difficiles demonstrations.           


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