Estudos sobre as leituras filosóficas de Camões

A cultura filosófica de Camões não encontrou ainda quem a estudasse com a extensão e segurança de método que o assunto exige e a camonologia impõe, mercê dos trabalhos de Storck e dos profs. D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, José Maria Rodrigues e Luciano Pereira da Silva — não devendo esquecer-se pela elevada intenção, comovida simpatia e alguns resultados felizes a obra de Teófilo Braga. Sob dois aspetos, intimamente ligados, se deve fazer esse estudo: assimilação e elaboração pessoal. Como assimilação, é o problema das leituras filosóficas, isto é, das fontes filosóficas da cultura camoniana, que o crítico deve investigar. Neste ponto de vista, há n'Os Lusíadas e, sobretudo na Lírica, referências a doutrinas filosóficas, na sua maioria helénicas, que reclamam um estudo atento e cuja coordenação, judiciosamente feita, permitirá avaliar a extensão dos conhecimentos histórico-filosóficos de Camões. Independentemente deste interesse, que em si já é apreciável, esta avaliação impõe-se também como condição necessária do estudo e crítica da conceção do Mundo e da vida, que informou a substância de alguns juízos de valor que o Poeta deixou esparsos na sua obra, quando a não exprimiu em conceitos, ricos de conteúdo doutrinal.

Camões não teve, como Antero, uma tendência metafísica, nem o seu espírito se debateu num conflito de ideias, que lhe impusesse a necessidade intelectual de racionalizar o real, ou duma idealização pessoal, consistente e coerente, da vida; mas nem por isso deixamos de encontrar na sua obra a expressão duma cultura filosófica e duma intuição da vida, já humana, já coletiva, sobretudo da Pátria. O alto espírito que escreveu algumas estâncias d'Os Lusíadas, as eternas redondilhas —Sôbolos rios que vão — e alguns sonetos, poderia ter escrito poesias filosóficas; mas o seu temperamento, impenitente e ardorosamente amoroso, não lhas ditou e o seu estro preferiu cantar as glórias da Pátria e as torturas e anseios dum coração amante de mulheres, que só poeticamente eram raios da formosura divina. Por isso não devemos pedir à obra de Camões o que ela não tem; mas no que encerra, há matéria suficiente para compensar os esforços de erudição e sagacidade crítica, que o estudioso despenderá numa sucessão prolongada de dúvidas, de par que brilham facetas novas do seu génio e pela sua integração na cultura portuguesa coeva se verificará, uma vez mais, ser em tudo o nosso Poeta nacional.

Querer surpreender a fonte de ideias, quando pela sua difusão se tornaram acessíveis, é sempre difícil, colocando-se não raro o crítico, no dizer desse subtil e feiticeiro erudito que foi Renan, na situação ridícula de «vouloir retrouver la trace du ruisseau quand'il s'est perdu dans la prairie». Mas a esta dificuldade acrescem outras, bem mais graves: a não fixação do texto camoniano e as incertezas da cronologia da obra lírica.

Ao menos pragmaticamente, o investigador da cultura filosófica de Camões carece de construir um sistema sobre estes assuntos, que dê uma satisfação às necessidades racionais da crítica e da formação e ordenação lógica das ideias do Poeta. É talvez pedir o impossível; mas poderá alguém esclarecer a verdadeira filosofia de Platão? Cada século, a bem dizer, conheceu a sua interpretação do platonismo e os sistemas sobre a autenticidade e cronologia dos diálogos do «divino» sucedem-se numa certeza cada vez maior dos erros dos antepassados e numa dúvida cada vez mais radicada dos juízos dos vindouros.

E no entanto o Platonismo há de atrair, numa eterna e sempre moça sedução, a inteligência humana, assim como a obra de Camões despertará o sentimento pátrio, enquanto houver um coração português e constituirá o ideário nacional, enquanto se falar a nossa língua.

Os três estudos que seguem constituem um ensaio de método e as nossas primeiras tentativas camonianas. São, talvez, discutíveis, e não nos sofre o ânimo de o serem. Sofre, sim, pelo sacrilégio cometido de descarnar obras-primas, considerando-as friamente como factos e descurando o que fez e fará o eterno encanto de Camões: a elevação do seu patriotismo e a beleza dos seus versos.


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