Evolução da historiografia filosófica em Portugal até fins do século XIX

Não lhe escasseavam dotes para constituir esta disciplina, se o tivesse pretendido com a modéstia inerente à compreensão das ideias; mas a sua índole não era modesta, e a própria conceção do labor histórico como que lha repeliam —, quer na mocidade, quando, atraído pela interpretação evolutiva da Humanidade, procurara ajuizar da quota de cada estádio e de cada povo na evolução humana e do alcance social da antinomia da liberdade e do determinismo, ou melhor, da necessidade, para empregar a palavra que Michelet acreditara, quer na derradeira quadra da vida, quando, impressionado pela subitaneidade e inovação dos movimentos históricos, caiu logicamente na biografia, ou, mais exatamente, no querer de figuras de forte relevo individual como fautores da História.

Antero de Quental, que por estes anos dava consistência à sua cultura literária com a leitura de escritos históricos e filosóficos, e Adolfo Coelho, talvez a mais insaciável e escrupulosa curiosidade de saber do seu tempo, também poderiam ter sido historiadores da Filosofia se as conjunturas epocais e pessoais lhes houvessem sido propícias, — e talvez mais aptamente, porque se por um lado careciam do vigor imaginativo e plástico de Oliveira Martins, por outro excediam-no, respetivamente, o primeiro, na perspicácia metafísica, e o segundo, na amplitude do saber colhido em fontes autênticas.

Pertencem, no entanto, a Latino Coelho as nossas melhores páginas histórico-filosóficas. Sem a agudeza destemida e o poder plástico de Oliveira Martins, sem a chama metafísica de Antero e sem a visão rasgada das ciências do espírito que permitiu a Adolfo Coelho ser grande, a um tempo, na Filologia, na Pedagogia e na História da Cultura, mas com as largas possibilidades de quem possuía as línguas clássicas e os idiomas neolatinos e germânicos, com a mente formada nas ciências exatas e voluptuosas das galas do estilo, nobremente ambicioso de associar a ciência da Germânia à viveza alacre dos ocidentais, Latino Coelho legou-nos uma obra sazonada, de plena maturidade, sem o estímulo picante das primícias nem as vacilações incertas dos tentames.

O mais largo quinhão do «Estudo» coube à História da Filosofia helénica, e o que singulariza estas páginas solenes, no estilo e na marcha compassada das ideias, é o esforço explicativo mediante a correlação das conceções e dos sistemas. Latino Coelho recorreu, por vezes, às fontes, embora sem profundo exame crítico, mas utilizou principalmente alguns dos mais famosos escritos que a erudição e a crítica até então haviam produzido sobre este assunto, quer sob a forma de tratados —, já diretos, designadamente de Zeller (Geschichte der grieschichen Philosophie), de Ritter (Geschichte der Philosophie, na trad. francesa) e de Blackie (On the pre-Socratic Philosophy), já subsidiários, como os de Nagelbasch (Homerisch Theologie), Otfried Müller (Geschichte der grieschichen Litteratur), Duncker (Geschichte des Alterthums), de Grote (History of Greece, na trad. francesa), de Curtius (Geschichte der Griechenland) —, quer sob a forma de compêndios, como os de Schwegler (Geschichte der Philosophie) e de Weber (Histoire de la Philosophie européenne).

Com ter utilizado tão larga cópia de informações, ocupa no entanto primacial papel a Geschichte der Philosophie im Umriss. Ein Leitfaden zur Uebersicht, que Albert Schwegler (1819-1857) pela primeira vez deu ao prelo em 1848, em Estugarda.

Foi este famoso manual que lhe inculcou a visão de conjunto, proporcionando-lhe ao mesmo tempo a compreensão, distante dos prejuízos tradicionais, da filosofia helénica, e a interpretação da conexão e significado histórico dos vários sistemas e das diversas escolas. Por isso, e ainda pelo recurso aos grandes monumentos da erudição germânica, notadamente a gigantesca História da Filosofia Grega de Zeller, Latino Coelho, considerado como historiador da Filosofia, reflete a grande escola dos historiadores alemães que colheram em Hegel algumas das ideias normativas fundamentais; daí a amplitude compreensiva e generalizadora das suas páginas e também o manifesto defeito dos seus esquematismos, de acentuada configuração lógica.

Nos dois derradeiros decénios do século saíram a público, em livro e artigos de revistas, vários escritos histórico-filosóficos. Nenhum se aproxima do Estudo sobre a Civilização da Grécia. Todos nasceram enfezados, sem firmeza nem alento, não vendo fundo nem longe como a própria sistematização filosófica — o Positivismo comteano —, que por então travejava as ideias gerais de grande parte dos portugueses sobre o Mundo e a vida.

Analisá-los, seria entrar em plena contemporaneidade; baste, por isso, acentuar que podem agrupar-se sob duas tendências capitais uma, de feição universalista, outra, nacional.

Na primeira, refletem-se o estímulo de alguns problemas gerais e constantes, assim como a repercussão de influências doutrinais coetâneas e até a de acontecimentos, como a comemoração do centenário de Giordano Bruno, que agitaram a opinião pública; na segunda, sob o impulso iniciado por Lopes Praça com a História da Filosofia em Portugal (Coimbra, 1868), desenvolve-se o estudo biográfico e histórico--cultural da obra de alguns portugueses, no qual sobressaiu Teófilo Braga.


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