Introdução à filosofia como ciência de rigor de Husserl

As páginas de A Filosofia como Ciência de Rigor podem ser consideradas em função do lugar que ocupam na continuidade do pensamento de Husserl e podem sê-lo em si mesmas, como expressão de uma conceção da filosofia.

O primeiro critério obrigaria a situá-las entre a crítica do psicologismo das Investigações Lógicas e a instituição da fenomenologia como ciência das Ideias para uma Fenomenologia Pura e uma Filosofia Fenomenológica; seria o mais adequado em virtude do pensamento de Husserl se ter desenvolvido com continuidade e em profundidade. As dificuldades de um estudo assim conduzido, mesmo que se utilizassem somente as Investigações Lógicas e o volume primeiro das Ideias, seriam extraordinariamente complexas; por isso, limitaremos modestamente a atenção ao que se nos afigura mais conveniente de ser notado, tendo principalmente em consideração a função propedêutica, e que o objetivo capital de Husserl ao escrever estas páginas consistiu em indicar a sua conceção da Filosofia e em a distinguir de conceções coetâneas que gozavam de larga aceitação e ainda continuam a tê-la ao presente.

Consequentemente, dividiremos a presente introdução em quatro secções, destinadas respetivamente ao ideal da Filosofia se constituir como ciência de rigor, à crítica da pretensão da Filosofia natural a ser filosofia fundamental, à crítica da conceção da Filosofia como mundividência e ideologia e à indicação ida Fenomenologia como ciência filosófica fundamental e rigorosa.

Nas lições de Franz Brentano colheu Husserl a convicção de que «a filosofia também é um campo de trabalho sério, a cultivar com o espírito da ciência a mais rigorosa», como ele próprio recordou num artigo sobre o mestre, a quem também dedicou a Filosofia da Aritmética, Parte I, (única publicada), com o subtítulo: Investigações Psicológicas e Lógicas (Haile, 1891). Se este foi, porventura, o germe da conceção que nos ocupa, a formação de matemático e o confronto ulterior do estado dos conhecimentos filosóficos com o estado dos conhecimentos científicos, assim no ponto de vista histórico como no da respetiva situação atual, convenceram definitivamente Husserl de que a Filosofia jamais conseguiu constituir-se como ciência rigorosa, tal como o conseguiram as ciências exatas. Daqui, a instância das seguintes perguntas: em que consiste a incientificação da Filosofia, qual a sua razão de ser e como instituir a Filosofia como ciência de rigor?

As ciências matemáticas e naturais são, como todas as ciências, imperfeitas: por um lado, por terem diante de si «o horizonte infinito de problemas por solucionar», e por outro, por conterem deficiências na doutrina e na justificação probatória. Apresentam, não obstante, um conjunto de conhecimentos certos, que não só aumenta como se ramifica, de tal sorte que ninguém duvida da «verdade objetiva» de tais conhecimentos. O saber destas ciências é um saber impessoal e coletivo, de todos e para todos, não dando, em geral, margem para «opiniões», «pareceres» e «posições particulares».

Ao contrário destes conhecimentos, os conhecimentos filosóficos oferecem o espetáculo de tudo neles ser discutível e dos juízos que exprimem dependerem «da convicção individual, da escola, da posição». Se esta foi e é a situação, o contraste só pode superar-se mediante a orientação que coloque a Filosofia e a Ciência sob o mesmo ideal de rigor.

O estabelecimento deste ideal exige que a Filosofia se constitua desde a raiz como ciência, e consequentemente se firme o terreno de objetividade sobre o qual terá de se exercer a reflexão filosófica, por forma tal que esta reflexão adquira a impessoalidade da investigação científica e como ela se possa tornar coletiva e desenvolver-se e aprofundar-se no decurso das gerações como se desenvolvem e aprofundam os conhecimentos matemáticos, físicos, biológicos, etc., pela continuidade de esforços e adição de resultados de sucessivos investigadores. Assim entendida, a Filosofia virá a ser «ciência de rigor», e para que o seja claramente cumpre remover do horizonte o propósito do «sistema», a atitude da «filosofia sob o ponto de vista de», a assimilação da Filosofia ao tipo das ciências da Natureza e a sua subordinação à intenção doutrinal de ideologia e de conceção prática da Vida.

O sistema, pela própria estrutura e intrínseca virtualidade, não pode constituir-se sem a existência de pressupostos e de pré-conceitos cujas consequências ou implicações obrigam o espírito a seguir por caminhos determinados, afastando-o do contato direto com a objetividade; e porque a desenvolução do pensamento dentro do sistema se faz a partir ou em consequência de afirmações iniciais que não são apodicticamente certas mas que cumpre manter, sem o que o sistema deixaria de ser intrinsecamente coerente, ele gera a estreiteza do espírito e conduz a deformações e erros.

Abandonando a conceção da Filosofia como sistema, Husserl tão-pouco se deixou enlear pela ideia de uma «filosofia sob o ponto de vista de», porque o seu propósito era radicalizar a Filosofia em bases anteriores a todo e qualquer ponto de vista e a tomar por ponto de partida «o que é anterior a toda a posição doutrinal”(Id., § 20).

Nem sistema de interpretação total nem condução unilateral do pensamento. Ambos são sinónimo de limitação, e Husserl, que aspirava a firmar a inquirição filosófica em bases inabaláveis, tomou decididamente, ou antes, heroicamente, a resolução de enfrentar estas «duras exigência: eliminar todos os hábitos mentais existentes até agora; reconhecer e quebrantar os limites do espírito com que cerram o horizonte do nosso pensar, e assenhorear-se com plena liberdade de pensamento dos genuínos problemas filosóficos, que cumpre formular plenamente de novo e que somente nos torna acessíveis o horizonte desanuviado por todos os lados”(Id., introd.).

A incientificação da Filosofia justificava que Husserl, por um lado, se desprendesse de vínculos históricos e das instâncias mais ou menos recebidas pelo comum dos filósofos, e por outro, procurasse fundamentar uma nova viragem da Filosofia a partir de bases que, ab ovo e firmemente, lhe garantissem a posição e o desenvolvimento no sentido estrito e rigoroso de autêntica ciência.

O desiderato consistia primariamente em estabelecer a radicalidade última do território objetivo da Filosofia, e o caminho para descobrir este território, após a Crítica da Razão Pura, tinha de seguir o itinerário epistemológico, «que é a condição primacial do carácter filosófico-científico», corno diz Husserl (hic., p. 5). Esta tinha de ser, e foi, a primeira grande tarefa de Husserl.

Com efeito, ao invés das Ciências, a Filosofia não se constitui de maneira «ingénua», para empregar a expressão de Husserl. Constitui-se entitativamente a si mesma, mas para que se torne plenamente autossuficiente carece de fundamentar o seu objeto; e desde que o seu objeto seja o de ciência rigorosa, «universal e absolutamente fundamental”(Id., epíl.), incumbe-lhe estabelecer um começo radical e último, tal que sobre o absoluto desta base ela se possa firmar inabalavelmente, sem carecer de quaisquer supostos. «Uma filosofia com bases problemáticas, com paradoxos que descansem na falta de clareza dos conceitos fundamentais, não é filosofia, e contradiz-se com o seu próprio sentido como filosofia», escreveu no citado epílogo das Ideias. É que a indagação filosófica «não pode começar em forma literalmente ingénua», nem instalar-se, «como as ciências positivas, na experiência do Mundo previamente dado e pressuposto como existindo em forma de si compreensível”(Ibid.).


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