Os Opera Philosophica de Francisco Sanches

Portugal, a Espanha e a França não aparecem na sua obra com referências e qualificações que manifestem francamente a maneira como sentiu a relação da sua existência profunda com a índole própria e peculiar destes países.         

Certos passos dos seus escritos indicam com clareza que não confundia o território de Portugal, continental e insular, com o de Espanha, e que discriminava os «lusitanos» dos «hispanos», cujas falas expressamente distinguiu. É possível que estes factos procedam de urna vaga afeição a Portugal, tanto mais que não referiu o seu juízo acerca do carácter dos Portugueses ao indicar os conceitos em que trivialmente são tidos outros povos, designadamente os Franceses, «sinceros e inconstantes», e os Espanhóis, «soberbos e insofridos», e a cuja índole alude como quem se não sente ligado a estes povos por vínculos de sangue ou de afeição; no entanto, contam-se pelos dedos as referências a autores portugueses — Amato Lusitano, Tomás Rodrigues da Veiga, a quem chama doctissimus, e Pedro Nunes —, e não deixou indícios de haver utilizado escritos na nossa língua.

Dir-se-ia que Sanches velou deliberadamente a personalidade política por ter preferido acentuar a confessionalidade religiosa, dado que se declarou diocesano bracarense, como que para significar que atribuía mais valor aos vínculos da religião que aos da nacionalidade. Compreende-se.

Em tempos e terras devastadas pelos ódios implacáveis dos dissídios confessionais, como os que Sanches viveu no sul da França, a afirmação do credo religioso continha maior significado pessoal e público do que qualquer declaração de sentido laico.

Toulouse, escreveu Cousin, «era então a cidade católica por excelência. A Inquisição, repelida por todo o restante território da França, lá se tinha estabelecido e estava em moda o zelo desmesurado” Grammond, contemporâneo de Sanches, conselheiro do Parlamento de Toulouse, e que como tal assistiu à execução de Vanini (1619), condenado por ateísmo a morrer na fogueira, testemunha que, «apesar do édito de Nantes ter concedido aos calvinistas proteção pública e autorizado a comerciar connosco e a participar na administração, nunca estes sectários ousaram fiar-se em Toulouse; o que deu em resultado que, única dentre todas as cidades da França, Toulouse esteja isenta de qualquer heresia, não havendo dado direito de cidade a ninguém cuja fé seja suspeita à Santa Sé»

Em ambiente tão intolerante, a indiferença religiosa tornava-se suspeita, pois a prática do culto equivalia a marcar a posição que se tomaria, bom ou mau grado, nas circunstâncias decisivas, assim como a área e o teor das relações sociais que se preferiam. Denotava incomparavelmente maior sentido do que a declaração da pátria de origem e da localidade do nascimento, e com ela o indivíduo comprometia a própria existência, porque a violência das paixões em guerra convertia a afirmação do credo religioso em decisão vital, recebida por uns como oferta de paz e por outros como desafio de combate.

Afirmando insistentemente o credo católico, é crível que Sanches obedecesse ao imperativo da consciência, mas não deve esquecer-se que o zelo religioso se tornara em Toulouse condição prévia e necessária do exercício das funções públicas. Sem a confissão pública do Catolicismo, Sanches não teria sido proposto mestre da Faculdade tolosana das Artes por postulation, isto é, com dispensa de provas públicas, tornando-se compreensível que deixasse bem acentuado que era diocesano de Braga pelo batismo e consentisse sem reparo que os documentos oficiais não fossem unânimes na menção da nacionalidade a que pertencia pelo nascimento.

O credo católico é, assim, uma componente a ter em conta na personalidade de Sanches, porque, como cidadão, não quis que houvesse dúvidas sobre o teor e a constância das suas crenças, e, como filósofo, também não hesitou em afirmar num dos versos finais do Carmen de cometa (1578) ser sensata a predição das más consequências que advêm da mudança de religião:

Sed magis, dico, time cultum variare Deorum.

Apesar da estranheza do plural — cultum Deorum—, este verso indica suficientemente que Sanches considerou o Catolicismo como revelação de verdades religiosas e como sistema temporal a que vinculava a ordem e a estabilidade social, por forma que este conceito de religião, se o não conduziu, como a Pierre Charron, no De la sagesse (1601), à justificação do ceticismo como método de apologética, ditou-lhe em todo o caso o conservantismo ético-político e a limitação da área da dúvida.

Do Carmen de cometa, escrito na flor da vida, aos vinte e seis anos, até ao ano da morte, em 1623, não saiu da sua pena um juízo que sugerisse a dúvida sobre os fundamentos absolutos da religião e da conduta, de sorte que somente aplicou o discurso crítico aos conhecimentos que procedem da experiência sensível, das inferências lógicas e da tradição dos textos literários.

Sanches quis «ser unicamente homem de ciência e de colégio», escreveu Christian Bartholmèss, e, com efeito, todos os seus escritos passam à margem do brasido dos problemas ético-sociais e quase todos se movem no plano dialético do pro e do contra, por forma que qualquer que seja, ou venha a ser, o juízo acerca da natureza do ceticismo de Sanches, pode desde já dizer-se com segurança que as suas reflexões epistemológicas não atingem a esfera da crença e dos fundamentos da conduta. Situam-se exclusivamente no plano teorético e explicativo, e portanto numa zona limitada da atividade do espírito humano.

A segunda componente da individualidade de Francisco Sanches radica na formação intelectual, que deu consistência e capacitou os seus dotes nativos. Sabe-se que estudou na meninice em Braga, na adolescência em Bordéus, para onde a família emigrou de Braga circa 1562, na mocidade em Roma e em Montpellier, onde rematou a escolaridade com o doutoramento em Medicina, mas salvo em Montpellier, não pode dizer-se ao certo o que estudou e como foi tido pelos mestres.

Uma vez mais, as conjeturas têm de ocupar o lugar das certezas documentadas. Os pontos de partida são dados pelo facto de ter aprendida as primeiras letras em Braga (até 1562?), as Artes, em Bordéus (até 1569?), certamente no Colégio de Guyenne, que possivelmente continuou no Archigimnasio della Sapienza, de Roma, iniciando ainda na Itália, ao que parece, mas não se sabe onde, o estudo da Medicina, até regressar a França, talvez em 1573, em cujo ano o seu nome aparece na matrícula da Faculdade de Medicina de Montpellier, na qual se graduou de bacharel em 23 de Novembro de 1573, de licenciado em 29 de Abril de 1574 e de doutor em 13 de Julho deste mesmo ano.

Salvo nesta Universidade, não há notícias que particularizem o teor e o aproveitamento dos estudos; no entanto, a situação pedagógica dos meios que frequentou e os vincos de formação escolar que aqui e além afloram na obra de Sanches, consentem correlações de alguma consistência. Assim, é legítimo pensar que em Braga aprendeu os rudimentos do latim, cujo estudo continuou e aprofundou em Bordéus, no Colégio de Guyenne, sob o principalato, senão com o magistério direto de Elie Vinet, pedagogo ilustre, antiquário erudito, tradutor da nota sobre os climas que Pedro Nunes aditara à tradução da Esfera de Sacrobosco, e membro do grupo famoso de mestres que André de Gouveia trouxe para Coimbra quando em 1548 instituiu o Colégio das Artes.


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