Os Opera Philosophica de Francisco Sanches

No primeiro caso, contam-se os seguintes: Quod nihil scitur; De diuinatione per somnum ad Aristotelem; In librum Aristotelis Physiognomicon Commentarius; De longitudine et breuitate vitae. No segundo: Carmen de cometa, uma epístola a Clávio, e os trechos que se podem extrair dos diversos escritos que constituem a Opera medica.

O Carmen de cometa não é, propriamente, uma obra filosófica, na intenção como na forma, visto ter por fim a insensatez dos presságios astrológicos, mas é de capital importância para o conhecimento da hierarquia dos problemas na marcha da reflexão de Sanches e da primeira expressão no seu pensamento da conceção da Natureza, fortemente impregnada de imanentismo. O texto que publicamos é reprodução da edição princeps, em Lyon, 1578, a qual, aliás, foi reeditada em fac-simile e em nova leitura, em Lisboa, 1950.

A carta a Cristóvão Clávio, que publicamos sob o título Ad C. Clauium epistula, é reprodução do texto dado a conhecer pela primeira vez por Joaquin Iriarte, no artigo Francisco Sdnchez el Escéptico disfrazado de Carneades en discusión epistolar con Cristóbal Clavio, inserto na revista Gregorianum, Roma, vol. XXI (1940), pp. 413-451.

Esta carta é a única peça atualmente conhecida da correspondência trocada entre Sanches e o famoso matemático, a qual, como logo advertiu J. Iriarte, deveria ser constituída, pelo menos, por uma carta inicial de Sanches, de consulta, pela resposta de Clávio, e pela réplica de Sanches. É esta réplica que adiante reproduzimos, cujo texto, aliás, apesar de peça desmembrada, tem particular importância para a avaliação do saber matemático de Sanches, para o conhecimento da sua posição na então debatida questão do ângulo de contingência, para a apreciação da influência do Aduersus mathematicos, de Sexto Empírico, e principalmente para o exame do alcance que atribuía à demonstração matemática. Parece ser o escrito de Sanches que mais diretamente se prende à escolaridade no Colégio de Guyenne, pela obra de Jacques Pelletier e pela tradução do Aduersus mathematicos, de Sexto Empírico, feita por Gentien Hervet. A subscrição da réplica com o nome de Carneades não significa disfarce, dado Clávio haver respondido à carta inicial; mostra, como é crível, que Sanches quis significar ao seu correspondente que a sua posição intelectual se não afastava muito da do cético grego.

Barbosa Machado, na Biblioteca Lusitana (s. v.), atribui expressamente a Francisco Sanches os Erotemata super Geometricas Euclidis demonstrationes ad Christophorum Clavium anno 1627, acrescentando que «a resposta que fez este grande professor de Matemática não satisfez à eficácia dos argumentos do nosso Francisco Sanches». Pelo que acima dissemos, os Erotemata identificam-se com a carta inicial de Sanches a Clávio; a sua impressão tipográfica não é acusada em qualquer biblioteca, assim como o respetivo texto manuscrito.

A redação do Examen rerum esteve muito adiantada, senão pronta para o prelo, em condições de vir a público após a saída do Quod nihil scitur, corno dão a entender as seguintes palavras deste livro: Examen rerum, liber paulo post edendum (20, 4-5). As variadas referências de Sanches a este escrito, em diferentes épocas da sua vida, assim em obras filosóficas (De long. et brev. vit., 55, 11) como médicas, inculcam que lhe atribuía singular importância. Pode até conjeturar-se que a reputava a sua obra capital, pois nenhuma outra foi tão lembrada na sua pena nem de nenhuma outra indicou com tanta insistência o teor das respetivas conceções.

Se bem notamos, o Quod nihil scitur somente foi recordado uma vez, no De longitudine et breuitate vitae (66, 37), e este facto, em confronto das reiteradas referências ao Examen rerum propõe a conjectura de que aquela obra foi ditada por circunstâncias ocasionais e redigida com intenção polémica, e que o Examen rerum tinha predominante sentido explicativo da Natureza e da atividade fisiológica, designadamente da visão, expondo o que Sanches considerava o resultado mais original e valioso da sua reflexão. Sendo assim, a mente de Sanches teria sido atraída com mais vigor e constância pela problemática da realidade natural, física e vital, do que pela problemática do conhecimento, propriamente dito, que aliás não separou dos ensinamentos e fundamentos da Medicina, de que era professor, como declara no Quod nihil scitur (3, 23-27).

 

As citações do Examen rerum, relacionadas principalmente com alguns passos do De longitudine et breuitate vitae, inculcam que a reflexão naturalista de Sanches se moveu, com alguma discrepância e independência, dentro da temática dos filósofos naturalistas anti-aristotélicos da Renascença, muito principalmente do De rerum varietate libri XVII (Basileia, 1561), de Jerónimo Cardano.

A seu juízo, Cardano era «nostri saeculi et Philosophus et Medicus doctissimus”(De diuin. p. somnum, 94, 12) e «summus philosophus et Mathematicus» (ibid., 99, 22-23). Dele dissentiu, por vezes tão antagonicamente que se pode considerar o De diuinatione per sommum ad Aristotelem, como processo refutativo da definição de adivinhação como conjectura vera de futuris, non certa ratione habita, que Cardano dera no 1. XIV (cap. 68) do De rerum varietate; não obstante, foi dentro do quadro da física do mal-aventurado algebrista que o Examen rerum foi pensado.

Como o mundo do De rerum varietate, o mundo do Examen rerum é um todo único, no qual a substância real é, a um tempo, matéria e força. Daí, a vida se dar por toda a parte onde se dê a matéria, e não haver matéria, e portanto vida, onde se não deem o calor e a humidade que, tanto para Cardano como para Sanches, são essenciais e fundamentais no processo cósmico. Como Cardano, Sanches estabelece a existência de três elementos — ar, água e terra (Excerpta, XI) — e de duas qualidades fundamentais de que procedem todos os seres do mundo sublunar — o calor, ut forma, actu, patre (De long. et brev. vitae, c. XI), autêntico «numen sublunare, dextera naturae, agens agentium, mouens moventium, principiam principiorum, causa causarum sublunarium, instrumentum instrumentorum, anima mundi (Quod n. sc. 27, 13-15), e a humidade, ut materia, subiecto, potestate, matre (De long. et brev. vitae, XI); consequentemente, o frio e o seco, a ver de ambos, não passavam de privações do calor e da humidade, o que deu ensejo ao gracejo de Scaliger, de que no tempo em que sopra o Bóreas, Cardano põe de lado as sandálias e os agasalhos porque o frio nada é.

O calor e o húmido, qualidades distintas, real e formalmente, em si mesmas unas e idênticas no mundo celestial e sublunar, são assim, como na conceção atomista, virtualmente substâncias, em virtude de produzirem operações. Referência alguma do Examen rerum indica o processo mediante o qual o calor e a humidade produzem operações próprias das substâncias corpóreas; somente deixou expresso que discordava da explicação corpuscular, designadamente de Jerónimo Fracastoro (De long. et brev. vitae, 64, 28-29). Segundo esta explicação, a ebulição, o esfriamento, o humedecimento e a secura resultavam da introdução, saída ou contração de corpúsculos.

Estas conceções, que desentranhavam e correlacionavam a cosmologia, a física propriamente dita, e a fisiologia, rompiam em parte com a física aristotélica, a cuja teoria da forma, aliás, Sanches também objetou a impossibilidade dela explicar a existência de híbridos e de monstros (Quod nihil scitur, 26, 33-45). Exprimem claramente urna posição naturalista e imanentista, dado que a Natureza se explica por processo natural e todas as coisas consistem, se sustentam e propagam com o calor e com a humidade.


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