Sobre o humanismo português na época da renascença

Através do catálogo da livraria de Fr. Diogo de Murça, por exemplo, adiante publicado, adivinha-se um espírito que acompanhou o movimento literário do triunvirato humanista: Erasmo, Luís Vives e Budé. Erasmo, em particular, teve no futuro reitor da Universidade coimbrã (1543-1555) um fervoroso admirador, tão variadas são as obras que do estupendo e alacre trabalhador possuiu. Com esse subtil e alado enlevo que só o século de Quinhentos conheceu, leria os escritos do príncipe dos humanistas; e, ao ritmo da leitura, a sua alma de religioso teria examinado também alguns dos problemas que aquela pena infatigável levantou, designadamente em torno do De libero arbitrio e, possivelmente, acerca da fidedignidade e valor teológico da versão do Novo Testamento.

Lovaina deu-lhe a admiração por Erasmo, ou talvez mais exatamente, a tendência para o humanismo antipagão, e a educação teológica, e com uma e outra a paixão antiluterana. Pelas vagas indicações do inventário se observa que lhe interessaram algumas polémicas de índole evangelista, como as de Fabre d'Étaples, Josse Clichtove e Noêl (Natalis) Beda. Dos escolásticos medievais só Alberto Magno, S. Tomás de Aquino, Durando, Duns Escoto e o nominalista João Major figuram na sua biblioteca, mas em compensação não falta a bibliografia patrística a revelar o abandono das subtilezas escolásticas pelas dúvidas filológicas e, sobretudo, pelas soberanas questões exegéticas.

Sob D. João II, a emigração escolar dirigira-se para Itália; com D. Manuel, porém, inicia-se o rumo da França.

Foi o Venturoso quem concedeu as primeiras pensões pagas pelo Feitor da Flandres; e, levando mais longe a generosidade, estabeleceu no colégio parisiense de Montaigu, em 1498, a fundação de 1300 libras, determinando ao principal João Standonck várias obrigações, entre as quais a de se reservarem perpetuamente lugares para dois escolares pobres portugueses, alojados em quartos independentes e cujas portas ostentariam as armas de Portugal.

Talvez haja sido esta a primeira pedra da grande obra renovadora, que D. João III dilatou, espontaneamente ou por vaidade, incitado, porventura, por aquela “boa inclinação para as letras e letrados” de que fala Frei Luís de Sousa, na qual, para além do impulso nativo, houve sem dúvida o ditame das circunstâncias históricas, às quais não podia furtar-se, sem desagrado do ambiente intelectual da Corte e dos dirigentes da nação e sem menoscabo da posição de Portugal na cultura do Ocidente. Por singular ironia do destino, D. João III, cuja psicologia é um mistério — fanático, ruim de condição e inepto, sentenciou Herculano —, foi o “pai das letras” ele que, a despeito do mérito dos preceptores, nunca aprendeu a “teoria da esfera” e “escassamente se enxergava nele a sombra da língua latina”!.

De 1521 a 1540, isto é, desde o início do seu reinado até à fundação do Colégio das Artes em Coimbra, contar-se-iam por muitas dezenas os estudantes portugueses em Paris, espalhados por vários conventos e colégios. Os superiores de mosteiros dominicanos e franciscanos parisienses atestaram a escolaridade de alguns teólogos; a maioria, porém, alojou-se nos vários colégios da urbe universitária, designadamente Montaigu e, sobretudo, Santa Bárbara.

Em Montaigu, onde se vivia pobremente e cujo regimento ascético arruinou a saúde de Erasmo (1495-99) e Rabelais recordaria com o repelente apodo de Collège de pouillerie, foram companheiros Francisco de Melo, o matemático de quem Gil Vicente entre chistes foi dizendo que tinha “sciencia avondo”, e D. Martinho de Portugal, o futuro arcebispo e embaixador em Roma, onde além dos negócios do estabelecimento da Inquisição procurou (1535) demover o papa a conceder o chapéu cardinalício a Erasmo.

Na época mais ardida da luta contra a sofistaria escolástica conheceu-os em Paris Luís Vives, um dos triúnviros do humanismo. Acabara de publicar a célebre epístola In Pseudodialeticos, verdadeira investida contra a cidadela dos gramáticos e dialéticos da tradição escolástica. Esperava a reação da Sorbona e as hostilidades dos tradicionalistas, e em seu lugar, com espantosa surpresa, veio encontrar a admiração e o aplauso dos “engenhos de Paris”. Escreve então (Bruges, 4 de Junho de 1520) a Erasmo, e dando-lhe parte da conquista dos espíritos para as humanidades, dizia: “Juán Población conhece a fundo toda a matemática e com igual sucesso se consagrou às letras polidas; Francisco de Melo faz o mesmo... Fizeram-me grandes elogios, muito aquém do que eu próprio verifiquei, D. Martinho de Portugal, parente do seu rei. A menção dos seus méritos encheria toda esta epístola. Depois de ter provado o amargor dos sofismas, tomou-lhes tal horror, que se lançou, ou antes mergulhou completamente na erudição natural e verdadeiramente humana, creio que para melhor depurar, pela doçura, o palato do antigo amargor.

Fez nestas disciplinas grandes progressos e como me não reputava inábil nelas, testemunhou-me benevolência, estima e favor animadores”.

De todos os colégios parisienses, Santa Bárbara foi, sem contestação, o que alojou e educou maior número de portugueses.

Em 1526, D. João III, incitado por seu irmão, o cardeal D. Afonso, helenista e latinista, e por Diogo de Gouveia, o velho, instituiu cinquenta bolsas no famoso colégio — liberalidade exalçada em versos, discursos e festas. Só o Colégio de Navarra, dos maiores de Paris, tinha apenas setenta boursiers! A Universidade envaidecera-se com a preferência régia e, sem louvaminha, Diogo de Gouveia (seniOr) escrevia (1527) a D. João III: “Creia Vossa Alteza que tem ganhado mais nome e glória que em tomar Fez”.

Durante vinte anos (1520-1540) a dinastia dos Gouveias regentou Santa Bárbara, e embora se tivesse malogrado o intento de compra do colégio para o rei de Portugal, na realidade tornou-se uma escola portuguesa pela população discente, pelo número de mestres e pela continuidade dos dirigentes. De muitos dos seus alunos se perdeu o nome; mas de alguns mestres, desconhecê-los é ignorar um dos momentos em que uma plêiade notável de portugueses honrou o País, honrando os próprios créditos: Diogo de Gouveia, o velho, reitor da Universidade de Paris; seus sobrinhos, — Marcial, poeta latino e gramático, que além de Santa Bárbara, professou em Poitiers, António, o anti-ramista, “cavaleiro andante da eloquência e da erudição” e “um dos raros espíritos que farão o eterno ornamento da Renascença”, André, le plus grand principal de France, no juízo de Montaigne (Essais, I, 25), que foi seu colegial no Colégio de Guyenne, em Bordéus, cuja fama o elevou à reitoria da Universidade bordelesa, e Diogo (junior), o mais obscuro—; Diogo de Teive, poeta e historiador latino do Cerco de Dio, e António Pinheiro, editor consagrado de Quintiliano e futuro bispo de Miranda e de Leiria (t 1582? 1583?).

Diogo de Gouveia, o velho, duca e maestro, foi, na confissão de Diogo de Teive (1550), “uma das causas principais de termos as boas letras neste reino”. E não só em Portugal, senão também em França, — poderia ter acrescentado o diserto e infeliz humanista, nesse miserável processo que o tinha a ferros da Inquisição.

Intimamente ligado à história do humanismo, o ensino de Santa Bárbara sob o principalato de Gouveia é inseparável do desenvolvimento da Renascença em França. Imparcialmente o julgou o latinista Quicherat, nestes períodos, que a erudição hodierna só tem corroborado: “Quando [Diogo de Gouveia, o velho] tomou o governo de Santa Bárbara, iniciava os estudos a grande geração que encheu com as suas ideias o século XVI. Abrasava os corações o desejo de atingir a perfeição em tudo, não se tornando necessário estimular os alunos, que procuravam ultrapassar os mestres. O mérito de Gouveia está em ter favorecido um ardor, que para muitos dos seus colegas era motivo de alarme. Por isso, logrou atrair o que havia de mais distinto no magistério e nos escolares, e como nunca o seu colégio foi o viveiro de homens ilustres”.


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