Sobre o humanismo português na época da renascença

A cátedra, a convivência e as amizades raras foram para muitos destes estudantes o prémio da sua ilustração e talento. A Francisco de Melo dedicou Gaspar Lax a Arithmetica speculativa (Paris, 1515), em cuja epístola dedicatória o considera totius naturae quasi portentum, e, ao que supomos, atraído pelo convívio de Paris acompanhá-lo-ia para Évora, onde faleceu (1522), o médico famoso Pierre Brissot.

Aquiles Estaço, discípulo em Lovaina de Pierre Nanninck (Nannius), que já recordamos como secretário das epístolas latinas do papa Pio V, é honrado com a amizade de Paulo Manúcio, António Mureto, Fúlvio Orsini e de S. Filipe de Néri, que o instituiu seu herdeiro universal.

Os franceses André Turnebe e Pierre Galland, o escocês Jorge Buchanan, que ensinou no Colégio das Artes de Coimbra e tão rude haveria de ser no desafeto a Portugal, o poeta letrado António Ferreira, estimam Diogo de Teive; e António de Gouveia, admirador dos poetas da Pleiade e de quem Calvino diz, no De scandalis, que como Rabelais e Des Periers, negava a imortalidade da alma, — acusação que por então, no acesso da guerra religiosa, se fazia levianamente —, é amigo de Buchanan, de Rabelais, a quem a liberdade de espírito de Gouveia, que não ateísmo, provocou os únicos versos latinos que compôs, de Briand Vallée, o que aliás não obstou que este o brindasse com o apodo de judeu, de João de Boysson, de Cujácio, o jurisconsulto famoso, de Emílio Ferretti, Minut, etc., etc., e ensina em Paris, Bordéus, Tou-louse, Cahors, Valence, Grenoble e Mondovi.

Jerónimo Cardoso, o gramático, dicionarista latino e antiquário, corresponde-se, dentre outros, com os castelhanos António Saliceto, Álvaro Gomez, Pedro Sanchez e com os compatriotas Pedro Ntmes, António Luís, André de Resende, Fernão de Oliveira, Jerónimo Osório, Inácio de Morais, Jorge Coelho, Damião de Góis, etc., etc..

André de Resende, Jerónimo Osório e Damião de Góis privaram com alguns dos maiores espíritos da Renascença. Das suas peregrinações discentes por Espanha, Bélgica, França, André de Resende recordaria com saudade, no retiro de Évora, a convivência ou o epistolário com Fernan Nuiíez (Pinciano), Erasmo, Conrado Goclénio, Rutgero Réscio, humanista e impressor, Nicolau Clenardo, João Vaseu, João Campense, João Second, Pedro Bembo, Ambrósio de Morales, etc..

Jerónimo Osório priva com Sadoleto, Bembo, António Agustin, Árias Montano e manteve trato epistolar, dentre outros, com o Cardeal Hosius e o arcebispo de Canterbury, Reginald Pole.

Damião de Góis, o mais cosmopolita dos portugueses do seu século, íntimo de Erasmo, que o hospeda em sua casa, priva e corresponde-se com Melanchton, Pietro Bembo, Sadoleto, Paulo III, Luís Vives, Conrado Goclénio, João Vaseu, Rutgero Réscio, Pedro Nannink, Bonifácio Amerbac, o potentado Jacobus Függer, Conrado Peutinger, Segismundo Gelenius, Beatus Rhenanus, Glarianus, o teórico da música, Lázaro Buonamici, Jorge Coelho, etc..

Alguns imprimem nas mais famosas tipografias os seus escritos: Góis, em Lovaina (Réscio), António de Gouveia, em Lyon (Gryphe), António Pinheiro, em Paris, Resende, em Lovaina, Bolonha e no famigerado Froben (Basileia), o editor de Erasmo.

É, um assunto digno e uma grande obra a escrever, a história das relações intelectuais dos portugueses de Quinhentos. Quantas revelações na simples coletânea do epistolário!

A substância humana, sensível ao coração e à inteligência, compensa o entejo da convenção, dos exageros e da ganga dos lugares-comuns. Estes homens tiveram o orgulho do saber e da inteligência, e alentou-os o sentimento de que formavam uma comunidade autónoma, quase sem fronteiras. De alguns, como de Erasmo, se pode dizer que não tiveram pátria; porém, os humanistas portugueses conciliaram o sentimento patriótico com o sentimento universal da comunidade dos homens.

Os testemunhos são numerosos, e alguns, como a obra de Pedro Margalho, tão louvado por Aires Barbosa, seu colega na Universidade de Salamanca, estão a solicitar a atenção e o entusiasmo de um amante da erudição e da história científica. Margalho, no tratado de cosmografia Phisices Compendium (Salamanca, 1520), invocado como autoridade científica na Junta de Badajoz (1524), convocada e reunida para determinar a longitude das Molucas, discute com orgulho o problema de saber, more metaphisicorum, se os portugueses pelas suas navegações atingirão o paraíso terreal.

Jerónimo Osório, em latim terso e com espírito enfático, propaga a gesta lusitana, levando-a a todos os recantos da Europa: Montaigne:considera-o non mesprisable historien latin de nos siècles, Ascham, ranck and full writer, e é citado por Bacon, o instaurador da metodologia científica, no Advancement of Learning, e por Leibniz, como prestante ao canonista, no Nova methodus discendae docendaeque jurisprudentiae.

Os Gouveias, salvo talvez António, tiveram sempre presente Portugal: Diogo (senior) é a um tempo mestre e diplomata, e André, escrevendo de Bordéus (1537) a Rui Fernandes, o amigo de Alberto Dürer, dizia-lhe que a despeito da situação vantajosa do seu viver, “tudo me parece nada porque não vivo na pátria e faço nela alguns frutos”.

André de Resende, non solum curiosissimus, sed etiam scientissimus como dele escreveu o flamengo João Vaseu, vivendo em Évora, evade-se mentalmente da insulação provinciana convivendo epistolarmente, afervorando o patriotismo no rebuscar de antiguidades lusitânicas — se verdadeiras ou pias fraudes, é outro assunto — e no verberar omissões ou deturpações de estrangeiros.

Nenhum, porém, rendeu à Pátria culto tão fremente como Damião de Góis. Descreve Lisboa, que com Sevilha reparte o senhorio dos mares; a Pedro Nannink faz a crónica breve da Península Hispânica; defende a gente hispana das acusações de Münster; informa Pedro Bembo da epopeia dos portugueses e disserta sobre a Abissínia, o cerco de Dio e as empresas lusitanas do Oriente. Com verdade pôde escrever o seu eminente biógrafo, que “pugnou sempre, dentro e fora do reino, pelos interesses mais elevados da pátria, sem olhar à vida, sem olhar a fronteiras, quando se tratava de salvar as conquistas mais preciosas da civilização europeia. Os seus serviços à Europa nas duas questões dos luteranos e dos turcos, os dois focos de discórdia nos séculos XV e XVI (e XVII), não caberiam num volume; e, se nos lembrarmos dos que ele prestou ainda a esta terra, então não acharemos outro nome para colocar mais próximo de Camões, pela valia dos serviços e pela imensidade do infortúnio. Filho da Renascença como Camões, com as grandes qualidades cosmopolíticas do humanista do século XVI e sem os seus defeitos, isto é, um carácter puro de toda a mácula, servindo de forte coluna a um grande saber, tal é Góis”.

Esta reivindicação da Pátria, expressa por vezes em terra estranha e longínqua, atraía para Portugal a admiração e o interesse. As navegações, as descobertas e conquistas, o monopólio das especiarias, o apostolado religioso, o patrocínio das letras — eram de per si clamorosos; mas só a conversação direta, os versos elegantes e o latim polido de Góis, de Teive e de Osório lhe davam nobreza literária e conferiam cidadania no domínio das curiosidades humanistas.

D. João III foi o beneficiário da aura do reino, e o seu nome viu-se honrado com a dedicatória de dezenas de livros, subscritos por alguns dos nomes que distinguiram o século —, Erasmo (Chrysostomi Lucubrationes, Basileia, 1527), João Fernel (Cosmotheoria, Paris, 1528), Luís Vives (De Tradendis disciplinis, Antuérpia, 1531), João Driedo de Turnhout (De Ecclesiasticis Scripturis et Dogmatibus, Lovaina, 1533), para só apontar ofertantes estrangeiros que andam no conhecimento de todos.


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