A propósito da atribuição do secreto de los secretos de astrologia ao Infante D. Henrique

Sem entrar na análise, que levaria longe e para fora do nosso imediato objetivo, de cada uma das referências em ordem a uma sistematização documentada, pode, no entanto, estabelecer-se sinteticamente que a Astrologia aparece nas páginas de Zurara como ciência descritiva da Esfera e como fundamento de prognósticos astrológicos.

Sob o primeiro aspeto, são de salientar a precisão que quis dar à data do falecimento da rainha D. Filipa (18-VII-1415) e à da tomada de Ceuta (21-VIII-1415), consignando as posições do Sol nestes dias, e a da Lua no segundo destes acontecimentos; e ainda as referências esparsas a divisões e à terminologia da teoria da Esfera, cuja propriedade de termos demonstra quanto estes conhecimentos lhe eram familiares e tão irreprimíveis no bico da sua pena como o foram a ênfase e as palavras empoladas nas comparações, paralelos e digressões retóricas.

Sob o segundo aspeto, Zurara deu-se conta das dificuldades teológicas inerentes à veracidade das predições astrológicas, mas não acusou, em parte alguma, as dúvidas e escrúpulos de D. Duarte.

Estas opiniões e assertos, com envolverem graves problemas relativamente às respetivas fontes literárias, consistência científica e significação histórico-cultural, nem por isso deixam de confirmar que, na época do cronista, se entendia por Astrologia a mescla de conhecimentos astronómicos, unanimemente aceites, com alguns preceitos de vaticínio astrológico, cuja extensão e grau de credulidade variavam com o critério pessoal de quem os considerava.

Tal é a primeira conclusão que se infere das páginas escritas por contemporâneos do infante D. Henrique. Elas confirmam, em segundo lugar, o real apreço por uma ordem de conhecimentos cujos tópicos se generalizaram a ponto dos próprios poetas não fugirem ao seu emprego, como mostra o Fingimento de Amores, de Diogo Brandão, no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.

Cultivando o estudo da Esfera, escrevendo ou compilando o Secreto de los Secretos de Astrologia, criando e instalando na Universidade as artes reales do Quadrívio, o infante D. Henrique obedecia coerentemente ao impulso da sua predileção pelos conhecimentos de índole científica e, ao mesmo tempo, correspondia a apetências intelectuais da sua época e, embora despercebidamente, dava alento aos primeiros tentames da cultura secular, isto é, a uma cultura que já se não moveria exclusivamente no âmbito da cultura concernente à formação eclesiástica.

O que vai além disto é do domínio solto da fantasia. Por isso não é possível descobrir, ao de leve que seja, uma ponta do mistério que envolve tudo o que respeita às suas opiniões científicas e às suas leituras. O mais que pode conjeturar-se é que não seriam desconhecidos os escritos de Juan Gil e de Ali aben Ragel traduzidos para português em tempos de seu pai, assim como alguns dos que corriam em nome de Afonso, o Sábio.

A obra alfonsina, em especial, atraía pela vastidão e variedade dos saberes. “Aquel honrrado Rey dom Affonso estrollogo, quantas multidoões fez de leituras!”, exclama D. Duarte no Leal Conselheiro, e na exclamação é de notar que o nosso rei-filósofo tivesse qualificado de “astrólogo” o avô de D. Dinis e verdadeiro instaurador da cultura espanhola, esquecendo os demais predicados, também notáveis, de historiador, de poeta, e sobretudo de legislador, cuja influência ainda atingiria as Ordenações de D. Afonso V.

O facto parece indicar que, no tempo de D. Henrique, era o saber astronómico o mais prezado dos vários saberes, cujo conhecimento a obra alfonsina proporcionava e, com efeito, o exemplo de Zurara é significativo. A General Estoria, que se propunha ser a história do mundo desde Adão ao reinado do monarca castelhano, e cuja estrutura é a de uma compilação de numerosas fontes de vária procedência e índole, foi aproveitada largamente por Zurara, que nela colheu e copiou os períodos e as páginas que mais e melhor podiam afiançar os seus conhecimentos da Natureza e da Geografia. Não pôs de banda a informação propriamente histórica, mas o que o prendeu principalmente foi a informação de objetivo científico, mostrando claramente com os plágios ou transcrições até onde podia ir a utilização de uma obra de tão vasto, variado e ambicioso intuito.

A utilização dos Libros del Saber de Astronomia não está comprovada como a da General Estoria, nem sequer indiciada, sendo este um dos temas a esclarecer na história da nossa cultura quatrocentista. A conclusão que venha a formular-se pode ser de largo alcance, mormente se se relacionar com outros escritos medievais. É que uma investigação desta natureza implica que a atenção se dirija para os escritores medievais, cujo método literário de compilação dava a conhecer assertos e opiniões de escritores antigos sobre os mais variados assuntos e com frequentes deformações, em vez de ela se dirigir, como fez Damião de Góis, na Crónica do Príncipe D. João (cap. VII), que no caso parece ter estabelecido uma tradição, para os autores da Antiguidade Clássica. Assim, por exemplo, o Plínio das edições e anotações críticas da História Natural não coincide exatamente com o Plínio que os homens dos séculos XIV e XV conheceram —, e ainda menos com o sentido e alcance que atribuíram ao que julgaram haver escrito o sábio romano.

A esta luz, o saber científico da época henriquina não cremos que possa ser apreendido com exatidão nos textos latinos editados criticamente após as investigações dos filólogos humanistas. Somente os escritos medievais, quaisquer que hajam sido os seus erros, as suas ignorâncias e as suas deformações, abrirão passo a interpretações mais próximas da realidade que se viveu e em que se acreditava, e desses escritos ocupa o primeiro lugar a obra vastíssima de Afonso, o Sábio.

Com a hesitação inerente a quem possui maior soma de ignorâncias que de certezas ou, mais propriamente, de aproximações da verdade, inclinamo-nos, não obstante, a pensar que é principalmente no legado científico alfonsino, no sentido amplo da palavra, que devem procurar-se os elementos fundamentais da visão do Mundo que o infante D. Henrique teve presente e da qual arrancou o seu saber do não-saber, ou por outras palavras, a consciência da dúvida acompanhada do desejo veemente de a esclarecer.


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