A propósito da atribuição do secreto de los secretos de astrologia ao Infante D. Henrique

Consequentemente, na marcha da conjetura, o Secreto de los Secretos de Astrologia seria a cópia de uma obra de Don Enrique de Villena que o infante D. Henrique possuía e na qual apusera, ou apuseram, o seu nome.

A construção desta conjetura, que por momentos nos sorriu pelo prazer de relacionar e de compreender, caiu pela base quando viemos ao conhecimento do Tratado de astrologia que fizo en romanze Don Enrique de Aragón Sennor de Yniesta, acabado “de escriuir en la muy noble cibdat de segouia a veynte dias del mes de abril en el anno de la natiuidad de ntro. saluador ihu. xpo. de m.cccc.xx.viii, por su criado andrés rodrigs.”. É que o começo e o fecho desta obra, que acredita seu autor como estudioso da Teoria da Esfera, que não exclusivamente da astrologia judicativa e das ciências ocultas, não coincidem com o incipit e o explicit do Registrum de Fernando Colombo; consequentemente, impõe-se a exclusão desta hipótese, a qual aliás não implica que o infante D. Henrique tivesse desconhecido o Tratado de Astrologia.

Somos assim levados a admitir como mais plausível a quarta hipótese, isto é, a de o Secreto de los Secretos de Astrologia ter sido uma miscelânea ou apanhado de apontamentos astronómicos e astrológicos, colhidos parcial ou totalmente em livros escritos em castelhano. Não se trataria, portanto, de uma obra original, mas da compilação de extratos e de notas, a que o infante teria dado o nome de Secreto de los Secretos, olhos postos na apócrifa obra de Aristóteles, por compendiar informes que consideraria prestáveis e importantes, teria acrescentado a estas palavras, as de Astrologia, pelo assunto dos apontamentos e extratos, e, finalmente, teria empregado o castelhano, porque fora de livros escritos neste idioma que fizera total ou parcialmente os extratos.

Trata-se, evidentemente, de uma conjetura, mas de uma conjetura que se nos afigura coerente com a índole dos conhecimentos necessários a quem tomou a iniciativa dos empreendimentos marítimos e que, ao mesmo tempo, toma explicável o silêncio de Zurara e dos demais contemporâneos acerca da atividade literária do infante D. Henrique. Para que dar notoriedade a um escrito que não passaria de um simples apanhado de notas e de apontamentos e que nem de longe, nem de perto, se podia compaginar às obras originais e às traduções que saíram da pena de seus irmãos?

Assim entendido, o silêncio tem razão de ser, como tem razão de ser a circunstância do infante D. Henrique se ter dado à compilação de apontamentos astrológicos e de ter posto um título castelhano aos cadernos em que os reuniu.

Na verdade, tudo o que sabemos acerca da personalidade intelectual do iniciador dos descobrimentos marítimos concorda em mostrar que as curiosidades profundas do seu espírito se inclinavam para o conhecimento do mundo natural. É o que singulariza e distingue dos irmãos, que tão notavelmente criaram nome pela atividade literária e pela reflexão ético-política.

Condizente com o sentido da época, com os anelos morais da sua geração e com o sentido da Cavalaria como milícia, isto é, sem a independência vagamundeante da tradição, D. Henrique, como escreveu João de Barros, “foi mui amador da criação dos fidalgos por os doutrinar em bons costumes; e tanto zelou esta criação, que se pode dizer sua casa ser üa escola de virtuosa nobreza, onde a maior parte da fidalguia deste reino se criou, aos quais ele liberalmente mantinha e satisfazia de seus serviços” (Década Primeira, cap. XVI).

Praticamente, como homem que preza a virtude e entende que a moralidade tem de culminar na ação educativa, D. Henrique coincide com os anelos morais de D. Duarte e de D. Pedro, mas afasta-se deles no objeto para que dirigiu a curiosidade de saber. Comparemos levemente as três grandes personalidades, pela luz que o paralelo esparge sobre a atividade intelectual, ou por palavras mais precisas, sobre os motivos por que, em vez de escreverem outros livros, D. Duarte e D. Pedro escreveram o Leal Conselheiro e o Trautado da virtuosa benfeyturia e D. Henrique teria escrito ou compilado o Secreto de los Secretos de Astrologia.

Como filhos mais velhos do fundador de uma dinastia cuja firmeza no trono foi o desenlace feliz de uma crise que abalou os próprios fundamentos da nacionalidade, D. Duarte e D. Pedro viveram mais intensamente que os irmãos, que se fizeram homens sob a paz do Triunfo e a quem a idade excluía da consciência a ideia de virem a ser presuntivamente herdeiros da Coroa, a inquietude dos problemas vitais da segurança material e do acordo ideológico das opiniões. Dois factos, por assim dizer autobiográficos, dão fé deste estado de espírito.

O primeiro, ocorreu em 1418, em Santarém numa dessas vigílias de alerta em que os azos de guerra com Castela tão frequentemente retezavam os ânimos. D. João I, que aí convocara Cortes, advertiu o infante D. Pedro, então com vinte e seis anos, de que devia pousar a pena com que estava escrevendo o Livro dos Benefícios, com base no de Séneca, que foi o esboço ou rascunho do Trautado da virtuosa benfeyturia, porque, “disse, non perteecia aos cuidados da guerra mesturas de penssamentos que fossem alheos, porque em sy eram atam grandes, que bem parece que outros com elles no coraçom nom podem caber.

E que porem de compoer livro nem de cuidado outro semelhante, por cousa algüa me nom trabalhasse”. O Infante assim procedeu, passando as folhas que havia escrito ao seu confessor, o licenciado Fr. João Verba, de cuja revisão e acrescentamentos saiu o texto que hoje conhecemos com o título de Trautado da virtuosa benfeyturia.

Anos depois, em data que não pode determinar-se documentalmente como o acontecimento que acabámos de referir, que é certificado por uma carta de D. João I existente no Arquivo da Câmara de Coimbra, escrevia D. Duarte, por seu turno, uns períodos do Leal Conselheiro aos quais claramente afirma a existência de vozes discordantes relativamente ao ideal político que estruturava a conceção do Estado da nova dinastia.

Com efeito, ao iniciar o capítulo 41, que expressivamente intitula Sobre a diferença dos estados, escreve estas significativas palavras:

Por que alguüs leterados e outras pessoas que vyvem em religiom fallam contra os estados dos senhores, homoés de linhagem, riqueza,poderio temporal e semelhantes, mostrando que som de grande empeecymento como cousas nom boas ou em que aja necessariamente pecado, e os fazem aver pequena sperança de sua salvaçom, louvando sua maneira de vyver por muito segura, e os jejüus, vigillias, rezar por obras certamente boas, vos faço esta declaraçom do que sobr'ello me parece, tirada pryncipalmente a força della do livro das Collaçoões”.

Talvez vibre neste juízo a inquietude relativa aos modos de ganhar o Céu, a qual se tornou mais viva com a expansão ultramarina e cujos conceitos fundamentais, válidos para Espanha e para Portugal, que nunca deixaram de ter postos os olhos na Mauritânia, foram claramente expressos por Jorge Manrique, no declinar da Idade Média:

El vivir que es perdurable

 no se gana con estados

mundanales,

ni con vida delectable

donde moran los pecados

 infernales;

mas los buenos religiosos

gánanlo con oraciones

y con lloros;

los caballeros y famosos

con trabajos aflicciones

 contra moros.

A génese de sentimentos tão expansivamente afirmados por Gil Vicente e por Camões reclama este e outros esclarecimentos análogos; no entanto, para além do tema propriamente escatológico, ressalta das declarações que os dois irmãos viveram com sinceridade um estado de espírito irmanado nas preocupações fundamentais da segurança e orgânica do Estado, a cuja estruturação ideológica dedicaram largas leituras e prolongadas vigílias.


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