Sobre a erudição de Gomes Eanes de Zurara (notas em torno de alguns plágios deste cronista)

Assim, sem tocar sequer ao de leve no complexo e intrincado assunto, para nós aliás incidental, baste deixar consignado que Joseph Engels estabeleceu com erudita investigação que as passagens que a General Estoria atribui ao “fraire” não procedem do Ovide moralisé, e as que atribui aos Integumenta Ovidii de Iohannes Anglicus “não remontam a este texto, e que algumas estão em relação estreita com as Alegorias de Arnolfo de Orleans”.

Daqui, a conclusão que importa: Zurara não teve em mente João Duns Escoto, em primeiro lugar, porque a nota onde ocorre a citação não é de sua autoria, e em segundo, porque a citação é plagiada e, quer cronológica, quer ideologicamente, o “mestre Ioham o Ingres” nunca poderia ser o filósofo franciscano.

Resumindo: apura-se, pois, que na relação de teólogos e de filósofos medievais que o Visconde de Santarém e Esteves Pereira admitiram haverem sido citados por Zurara têm de ser excluídos Santo Anselmo, Santo Alberto Magno, S. Tomás de Aquino, Pedro Lombardo, Pedro Alíaco e João Duns Escoto.

Resta agora considerar as demais citações correspondentes a esta secção, a saber: S. Bernardo, Bernardo, autor do Regimento sobre a governança da casa, João de Salisbury e Egídio Romano.

O nome de S. Bernardo ocorre na Crónica de Ceuta e na de D. Duarte.

Naquela, é invocado na prédica que Fr. João Xira fez em Lagos, na qual anunciou que a expedição se destinava à conquista de Ceuta: “... das boas uoontades he, segundo diz sam Bernardo, conhecer homem culpa omde culpa nom tem...” (p. 157).

Não merece muito crédito a textualidade das frases que Zurara põe na boca deste pregador. Os cotejos que fizemos em outro escrito são suficientemente elucidativos; no entanto, cremos que esta citação pertence a Fr. João Xira, que não a Zurara.

O cronista inicia o capítulo declarando que Fr. João Xira, “como homem muito abastado de çiemçia fallou muitas cousas de gramde autoridade, das quaaes nos apanhamos alguuas pequenas partes, assy como as podemos apremder segumdo a lomgura do tempo por acompanharmos nossa estoria” (p. 156).

Atribui, consequentemente, a autoria da citação ao pregador franciscano —, e que a não atribuísse, a circunstância do nome de S. Bernardo somente ocorrer neste passo, é de per si indício de Zurara não ter lido, ou pelo menos detido a atenção, sobre quaisquer escritos do ardoroso reformador.

Com efeito, as citações da Crónica de D. Duarte não se compaginam com a que acabámos de transcrever. O nome de S. Bernardo ocorre duas vezes nesta Crónica, em termos idênticos:

“Mas bem se pode aqui screver hua pallavra de São Bernardo, que diz “Se tu cuidas que teu imigo nom cuida o que tu cuidas, a perigo te despões” (p. 35), e: “como diz Sam Bernardo, se homem cuida que seu imigo nom cuida o que elle cuida, a perigo se despõem” (p. 212).

A unicidade da máxima nas duas citações é evidente, como é evidente a identidade destas mesmas citações com o seguinte passo da Crónica de Guiné: “E segundo diz Bernardo, no regimento que fez a Ricardo, senhor do Castello Ambrosyo, sobre a governança da casa, que aquelle que nom consiira que seu imiigo pode pensar aquello que elle meesmo pensa, a perigo se despoem” (cap. 48).

A correlação destas três citações nunca foi notada, e consequentemente também não foi considerado o problema da identidade da fonte donde a máxima procede.

A primeira coisa a notar é que a citação do nome de S. Bernardo está desacompanhada de referência a qualquer escrito, enquanto que a de Bernardo é precisa, reportando-se diretamente ao respetivo livro —Regimento sobre a governança da casa. Este facto inclina a crer que Zurara teve presente o Regimento, fazendo portanto uma citação direta; e que assim deve ter sido parece corroborá-lo a citação do Leal Conselheiro, na qual D. Duarte se refere a este mesmo livro: “ataa que as despesas com a rrecepta sejam temperadas, como diz Bernardo em o Trautado do Regymento da Casa, onde screve que, se as rendas e despesas forem iguaaes, qual quer caso nom penssado que se recreça cedo a podera destroyr”.

Zurara e D. Duarte citam o mesmo livro em passos diferentes, e que as respetivas páginas existiram na livraria de D. Duarte também parece não haver dúvida, pois a semelhança dos títulos induz que seriam uma e a mesma obra o Regimento sobre a governança da casa, citado por Zurara, o Trautado do Regimento da Casa, citado por D. Duarte, e o Livro dos Oficios da casa dalgum Rey, indicado no rol da livraria de D. Duarte. Que livro seria este, e quem o seu autor?

Em 1941, o Dr. Duarte Leite estabeleceu, sem aduzir prova, que Bernardo seria Bernardo Silvestre ou Carnotense, o filósofo do De mundi universitate, e em 1942, o Dr. J. M. Piel declarava que o autor e o livro lhe eram desconhecidos.

Com mais afortunada inquirição, que aliás não foi possível rematar com o paralelo da citação e do original, pode deixar-se estabelecido que se trata de um escrito cuja autoria ora aparece atribuída a S. Bernardo, mas que lhe não pertence, ora a Bernardo, que alguns identificam com Bernardo Carnotense, e que a dúvida aconselha referir a um ignorado ou Pseudo-Bernardo, como fazem os mais avisados bibliógrafos. Este escrito, que alcançou larga voga na Baixa Idade Média e Mabillon considerou indigno do prelo, tem por título latino Epistola de gubernatione rei familiaris, foi vertido e impresso no século XV em alemão, neerlandês, francês, italiano e castelhano, saindo esta edição em Burgos, por 1498-99, com o incipit seguinte: Comièça la epistola de san bernardo a rreimundo cauallero su sobrino dela manera y forma que se deuè regir la haziècla. Ela casa Dize san bernardo al rreimundo....

Trata-se, pois, de um pequeno diretório doutrinal, a juntar ao De regimine principum, de Egídio Romano, que foi o livro mestre da doutrinação política na primeira metade no nosso século XV, e cuja leitura é crível se fizesse no texto latino, dadas as variantes do título que lhe atribuem em português e a particularidade de Zurara referir o destinatário a Ricardo, em vez de Raimundo, como dizem o texto latino e espanhol.

João de Salisbury (1115-1180), cuja obra de moralista, de epistológrafo, de filósofo, de político e de prelado se recorta com tanta individualidade sobre o fundo ideológico do século XII, aparece citado na Crónica de Ceuta (p. 201), não pelo seu apelido ânglico ou alatinado (Sarisberiensis), mas pelo título da sua obra mais famosa, o Polycraticus, aliás desfigurado sob o nome de Policrato. A citação ocorre numa prédica, ou antes exortação, de Martim Pais, capelão-mor do infante D. Henrique, nos seguintes termos: “Toda animalia ama a outra a ssi semelhante, e todo homem deue isso meesmo de amar a seu proximo, segumdo sse mostra nos estromentos da musica, nos quaaes todallas vozes comcorrem huu comssoamte, e sse comrrespomdem e dam perfeiçam huuas aas outras. E assy diz Pollicrato, que deue seer na comunidade dos homeès, os quaaes sse devem dajudar e acorrer huus aos outros. E esto meesmo parece na supernall natura e comunidade dos amjos”

A fonte é manifestamente o princípio do cap. XXVIII da parte II do livro III do De regimine principum, de Egídio Romano, como se comprova pela seguinte transcrição da versão castelhana: “Mas aqui conviene de notar lo que dice Polícrato al deceno libro al VIII° capitulo, que así como los que tannen los instrumentos que han cuerdas son muy acuciosos e han gran cuidado, e en cualquier manera enmiendan la cuerda errada, que se desacuerda de las otras, porque la fagan acordar con la otras e porque faga muy dulce sonancia, no rompiendo las cuerdas, mas extendiéndolas poco a poco mesuradamente, porque vengan a consonancia e acordamiento con las otras. Bien así el rey o el principe, que ha de governar el reyno, deve ser muy acucioso e estudiar mucho en cómo pondrá sus leyes e en cómo governará su reyno por ellas, a las veces extrannando por justicia los maios, e a las veces perdonando por piedad lo que se deve perdonar, así que faga todos los súbditos acordados a si, como si todos morasen en una casa, e los desacordados que los traiga a acuerdo e a paz con los otros, en manera que todos los ommes en sus obras fagan una acabada e dulce armonia e una policía de concordia buena”


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