Sobre a erudição de Gomes Eanes de Zurara (notas em torno de alguns plágios deste cronista)

Que nome e escrito se escondem na citação de Zurara, e onde foi este buscar as linhas que transcreveu?

Não sabemos dar resposta a tais perguntas. Conjeturamos, no entanto, que o nome estropiado de Abilabez  possa identificar-se com Aben-Habibe que a menção dos informes deste cronista arábigo--hispano do século IX proceda de uma compilação do tipo da Geografia e História da Espanha do mouro Rasis, da General Historia, da Crónica General, esta última em castelhano, ou da Historia Geral de Hespanha composta em castellano por el-rey de Leão e Castella D. Alfonso o Sabio, trasladada em portuguez por el-rey D. Diniz ou por seu mandado, e continuada na parte que diz respeito a Portugal até ao anno de 1455 no reinado de D. Affonso V.°.

Raras vezes reprimiu Zurara a inveterada tendência que o arrastava para as digressões marginais, e uma dessas vezes deu-se sobre assunto em que parece ter possuído alguns conhecimentos gerais: a Astrologia.

Quaisquer que hajam sido as variações do seu pensamento, ou talvez mais propriamente, da sua credulidade, jamais hesitou na aceitação do princípio fundamental da Astrologia, ou seja, a crença de que os acontecimentos que ocorrem no mundo sublunar sofrem, pelo menos, a influência da natureza peculiar dos vários corpos celestes e dos respetivos movimentos. O grau desta influência é variamente considerado, admitindo uns que os eventos sublunares estão subordinados aos celestiais, e limitando outros a influição à compleição e predisposição dos indivíduos para certas ações ou maneiras de ser.

Tudo indica que Zurara foi deste último parecer, como adiante veremos, mas fosse qual fosse, é óbvio que a densidade do juízo de qualquer vaticínio astrológico dependia aparentemente do grau de conhecimentos matemáticos e astronómicos. A esta luz, é de crer que o saber exato de Zurara não tivesse sido muito vasto nem muito sólido, dada a exiguidade, senão carência, de conhecimentos matemáticos.

O emprego das posições do Sol e da Lua para assinalar o falecimento da rainha D. Filipa (C, cap. 45) e a tomada de Ceuta (C, caps. 68 e 87) pode ter-lhe ocorrido originalmente, mas não é seguro que lhe pertença a determinação dos respetivos dados; e a copiosa menção de eras com que inicia o capítulo final da Crónica de Ceuta é mais um testemunho da influência da General Historia e da Crónica General de Afonso o Sábio, e sobretudo das Táboas Alfonsinas, pois como notou Esteves Pereira, “as eras mencionadas nos caps. LXXXVII e CV da Crónica da Tomada de Ceuta são as mesmas que são dadas no começo das Táboas Alfonsinas e pela mesma ordem; somente é de notar que a era de Diocleciano, que começou no ano de 284 de J. C., mencionada nas Taboas Alfonsinas, foi substituída, nos dois capítulos indicados da Crónica da Tomada de Ceuta, pela era de Alimus ou Acimus (Anianus?), que começou no ano de 444 de J. C.” .

 Qualquer, porém, que haja sido o saber exato de Zurara, temos por sem dúvida que alcançou o conhecimento elementar da teoria da Esfera, aprendendo-o talvez no manual então em voga e que Pedro Nunes ainda haveria de traduzir passado um século para servir de livro de texto, segundo cremos, aos infantes D. Henrique, D. Luís e D. Duarte: a Esfera, de Sacrobosco. Prova-o o seguinte passo da Crónica de Ceuta (p. 271), no qual, a propósito das “cousas que sam sobre a espera da luua ataa o postumeyro çeeo” não resiste a declarar que “seria fremosa departiçom, sse eu dissesse alguua cousa açerca da diuisam daquellas planetas, e os caminhos que trazem cada huila em sua volta, saluo a nouena que he unica e nom tem epiçicollo, segundo mais compridamente podem saber aquelles que tem uistos os teistos de Tollomeu ou leeram per Almajesta, ou per aquello que ecspreueo Alfarjano em suas deferenças, e per mujtos autores que açerca della assaz fanaram”.

Este passo, já anteriormente referido a propósito de Ptolomeu, cita “Alfarjano”, autor de um dos livros, o “Das deferenças”, que expunham a teoria da Esfera. Zurara não fala em Sacrobosco, (João de Holywood), mas temos por seguro que o contaria entre os “muitos autores” que dela se ocupavam. Refere, porém, em seu lugar, com todos os sinais externos de leitura direta, aquele outro astrónomo, cuja identificação não oferece dificuldades, pois é, como aliás já escreveu Esteves Pereira, o árabe Mohamed ben Kotsair al Fergani († 834), comummente designado pelo nome alatinado de Alfragano.

Se a identificação do indivíduo é, por assim dizer, óbvia, o mesmo já se não pode dizer da obra que Zurara lhe atribui. Ë que os bibliógrafos e historiadores da Astronomia atribuem a Alfraganus um livro que se divulgou larguissimamente durante a Idade Média e primeiros decénios da Renascença, que João de Sevilha e Gerardo de Cremona verteram para latim e cuja primeira edição, impressa em Ferrara em 1493, saiu com o título: Brevis ac perutilis compilatio Alfragani astronomorum peritissimi totum id continens quod ad rudimenta astronomica est opportunume cujos numerosos manuscritos referem as seguintes designações: Elementa astronomica; Liber de aggregationibus stellarum et principiis celestium motuum quem Ametus filius Ameti qui dictus Alfragani compilavit; Muhammedis Alfragani theoria planetarum et stellarum; Liber Alfergani in scientia astrorum et radicibus motuum coelestium.

Estes títulos do livrinho de Alfragano, que a concisão e clareza converteram em manual famoso e divulgadíssimo, poderiam originar a suspeita, a quem o não examinasse intrinsecamente, de que Zurara fizera uma citação em falso ou equivocadamente, por se não atribuir a Alfragano escrito algum com a designação: Das diferenças. Não obstante, foi este o livro que Zurara citou, pela razão de que os Rudimenta astronomica repartem o assunto em secções ou capítulos, que levam o título comum de Diferença, seguido do respetivo número de ordem. Assim, por exemplo, a secção relativa à grandeza da circunferência terrestre tem este título: Differentia VIII. De mensura terrae et divisione climatum, quae habitantur in eai.

Desta verificação resulta que Zurara fez uma citação que corresponde ao livro de Alfragano, e tê-lo intitulado como o intitulou parece até indicar com clareza que algum trato teve com as respetivas páginas. Não é possível asseverar se foi ou não original quando assim o intitulou, por se dar o caso do Livro da Montaria também citar em condições similares um livro com o título Das deferenças, que atribui a Albumasar.

O passo merece transcrever-se por nos dar como que o catálogo de livros de Astronomia-Astrologia em uso, ou pelo menos tidos em boa conta, na corte de D. João I:

“... Ca deste signos disse João Gil  e Albamazar no seu livro das deferenças e dos juizos e Tolomeu no seu almagesto, e Ali aben Ragel no seu livro dos juizos, e o author da sphera, e da theorica das pranetas, e todos estes disserom que no ceeo octauo, a que os estrologos dizem octava sphaera, esta sphaera partirom os sabedores em doze partes, ca este partimento disserom os astrologos zodiaco, porque estas doze partes comprehendem os doze signos”.

Compaginando estas citações do Livro da Montaria com as de Zurara, parece legítimo concluir-se que o cronista alcançou e teve em apreço um conjunto de conhecimentos gerais em que se entrelaçavam os dados então científicos da Astronomia com as interpretações e vaticínios da Astrologia. Daí, o haver admitido a conceção eclética, vaga e imprecisa, da “inclinaçom das rodas cellestriaaes, ca como eu screvya nom ha muytos dyas, em hüa epistolla que envyava ao senhor rey, que posto que seja scripto que o barom sabedor se assenhorara das estrellas, e que os cursos das planetas, segundo boa estimaçom dos Santos doutores, nom podem empeecer ao boõ homem, manifesto he porem que som corpos ordenados no mesteryo de nosso senhor Deos, e correm per certas medidas e a desvairadas fiis, revelladas aos homeês per sua graça, per cujas influencias os corpos mais baixos som inclinados a certas paixoões” (G, 48).


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