Sobre a erudição de Gomes Eanes de Zurara (notas em torno de alguns plágios deste cronista)

Com efeito, Primeira Cântica”, expressão que volta a repetir na Crón. do Conde D. Duarte (p. 249), são palavras que na linguagem dantesca tradicional exprimem o conjunto dos trinta e quatro cantos que constituem a parte do poema que também se designa por Inferno, tal como «Segunda Cântica” e “Terceira Cântica” designam respetivamente o Purgatório e o Paraíso. Zurara empregou, pois, uma expressão adequada, mas o que diz do poema é insuficiente para se formar um juízo acerca do conceito em que o teve —, embora a aproximação de Dante com Valério Máximo ponha claramente a nu a balda erudita e a pretensão de justificar lugares-comuns com a abonação de autoridades muito diferentes.

Além dos próprios versos do Inferno, Zurara conheceu ainda um comentário desta primeira parte do poema de Dante, assim referido na Crónica do Conde D. Duarte de Meneses (pp. 248-249): “E porque como magnanimo, e homem de tal sangue posera toda a sua bemaventurança deste mundo em ganhar aquello que o Philosopho dixe que era o principal premio e gallardão dos nobres e excelentes barões em esta vida e ainda na outra, ca segundo diz Iohão Flamano na glosa que fez sobre a primeira cantica Dante “Que ainda no Inferno he dada menos pena àquelles que em este mundo forão excelentes cavalleiros”.

Trata-se, como parece verosímil, de um dos comentadores dantescos do séc. XIII, cujo nome e obra outrem melhor apetrechado poderá identificar —, o que nos foi impossível com os elementos bibliográficos de que dispomos nesta ocasião.

De Cino da Pistoia (1265? — 1336? 1337?), cuja obra jurídica os contemporâneos do cronista talvez não ignorassem, a referência tem mais valor e alcance, porquanto é acompanhada da tradução de alguns versos do poeta que mereceu o apreço de Dante e de Petrarca. a seguinte, e ocorre na Crónica de D. Pedro de Meneses: “E como Micè Chino de Pistoya em huma sua Cançõ Moral diga, que se nom pode dar herdade de mayor riqueza, nem joya de mayor valor a qualquer nobre, e excellente, que a imagem sua pintada de virtudes, na qual como em espelho, se possa esguardar o lume de seus feitos ante a presença de todolos outros, que depois vierem nos tempos da futura idade” (pp. 215-216).

Com efeito, Zurara teve em vista a canção em que Cino da Pistoia elogiou as virtudes do marquês Franceschino Malaspina, traduzindo livremente alguns versos da seguinte estância III (vv. 25-36):

Egli è ch' intende pur d'ammassar auro

 ed altre cose passa

leggier, pur che sua vita breve posi:

ma quel ch' è valoroso, un bel tesauro

 d'alta memoria ammassa

che punge, com' i' dico, gl' invidiosi.

Non si puó dir   ricca' reditate,

nè di maggior biltate,

che l'immagine sua di virtii pinta

in cui si specchia ogni ventura etate,

ma quella è pita. costrinta

che nasce e vien di gentilezza cinta.

Talqualmente em relação à Prima Cantica de Dante e ao respetivo comento de João Flamano, não há indícios que apontem o caminho por onde veio aos olhos de Zurara o manuscrito das poesias de Cino da Pistoia; no entanto, quando se nota que a citação do Poeta se segue imediatamente ao elogio de Mestre Mateus de Pisano, que acima transcrevemos, é-se levado a conjeturar que foi este último quem lhe proporcionou a leitura do manuscrito. A contiguidade de ideias ou de estados psicológicos teria despertado a associação do nome de Pisano.

Como quase sempre, foi a intenção moralizante que o levou a citar Giovanni Boccaccio (1313-1375) para justificar a opinião de que “a mais exçellente virtude que se pode achar no prinçipe. ss. nas aduersi-dades seer forte e nas prosperidades umildoso. ca per faleçimento de cada huua dellas cairam ja muitos prinçipes muy grandes quedas segundo conta Iohan Bocaçio hum poeta que foy natural de Florença” (Crón. de Ceuta, 14-15).

O cronista tinha em mente o De casibus virorum illustrium, que Boccaccio reviu definitivamente em 1374 e em cujas páginas moralizou sobre a fragilidade da natureza humana e das mais elevadas situações sociais. Coincidente com o sentimento epocal, o De casibus teve numerosos leitores em terras da Península, atuando na simbolização literária, pois raros escritores de Quatrocentos deixaram de moralizar ou de discretear sobre os exemplos das desventuras e quedas dos grandes, “ca no son llenos los libros e coronicas salvo de muertes e de caydas de principes e caavlleros” na frase significativa do condestável D. Pedro, na Tragedia de la insigne reyna Doña Isabel.

A referência de Zurara não assinalava, assim, uma novidade, mormente depois do marquês de Santillana haver conferido categoria literária ao tema e deste se divulgar na roda curta da Corte portuguesa, como sugere a justificação que ao rei D. Duarte deu o infante D. Henrique sobre a pretensão do infante D. Fernando se ausentar de Portugal, pois, dizia, “muitos Reis e Príncipes com uma longa ociosidade e segurança de paz, nos primeros revezes da fortuna cairam torpemente no mundo de seus estados e senhorios. Os exemplos disto não alego, de que os livros são cheios”.

Zurara poderia, pois, ter conhecido a obra e o tema de Boccaccio por leitura direta ou de segunda mão, e até mesmo por ouvido numa conversação de letrados. Considerando, porém, as circunstâncias, tudo inculca por mais provável, senão certo, que o cronista leu o De casibus não no texto latino, mas na tradução castelhana de Pero Lopez de Ayala e Alonso de Cartagena, que foi ultimada em Portugal.

O chanceler Ayala havia traduzido em Castela os oito primeiros livros, deixando de remissa a continuação; por isso, Juan Alfonso de Zamora, secretário de Juan II, encontrando-se em Portugal, em 1422, com Alonso de Cartagena, exortou-o a concluí-la, oferecendo-se até para seu escrevente. O futuro bispo de Burgos concluiu a tradução, que um prelo de Sevilha deu a público em 1495 com o título: JUAN BOCACIO, Caida de Principes, traducida de latin al castellano por D. Pedro Lopez de Ayala y continuada por D. Alfonso Garcia.

É de crer que a versão não ficasse desconhecida da Corte portuguesa, podendo até suspeitar-se que ela seria o “libre a forma de full scrit en pergami e en vulgar castella o portugues, appellat Joan bocaci” que o condestável D. Pedro possuiu em cópia que lhe oferecera o marquês de Santillana, seu dadivoso amigo e mestre; contudo, ela não figura no rol de livros que pertenceram a D. Duarte.

Arturo Farinelli estranhou o facto  —, e com razão, dadas as relações que o autor do Leal Conselheiro manteve com Alonso de Cartagena, e a que já anteriormente nos referimos. Custa a crer, com efeito, que ele não tivesse tido conhecimento e possuído uma obra que tanto e tão bem quadrava à sua sensibilidade e anelos morais; e, por outro lado, é indício significativo a forma como Zurara se refere ao escrito de Boccaccio — “cairam já muitos prinçipes muy grandes quedas”- dado que esta maneira de dizer se harmoniza mais adequadamente com o título da tradução castelhana que com o original título latino.

Marco Polo somente aparece citado na Crón. de Guiné, como informador de práticas de antropofagia: “no livro de Marco Paullo se diz, que geeralmente se costumavam estas cousas antre muytas naçoões daquellas partes orientaes”  'p. 227). A fonte deste passo é o relato que o celebérrimo viajante veneziano fez da antropofagia dos “moradores da ilha de Cipango”. O estabelecimento deste facto permite inferir que Zurara leu a própria obra de Marco Polo —, bem podendo ser que tivesse utilizado o manuscrito que a Senhoria de Veneza ofereceu ao infante D. Pedro, e que no informe de Valentim Fernandes, “dizem... que esta na Torre do Tombo”, de que Zurara foi guarda-mor, como é sabido.


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