Sobre a autenticidade dos sermões de Fr. João Xira

…..... saybamos que som tres ternarios, em a geeral uniuersydade do mundo, comprydos de todo em circulaçom.........................................................................................................................

E por esto o profundo philosophal theologo grande alberto, sobre o primeyro capitullo da celestial iherarchia, poem tres graaos do entendimento per que sse ha em conhecer deos...

Deste paralelo pode concluir-se:

1.° — No sermão de Fr. João de Xira há períodos plagiados do Tratado da Virtuosa Benfeitoria, os quais devem atribuir-se a Zurara, já porque em 1415, ano da conquista de Ceuta, o infante D. Pedro não havia ainda começado a primeira redação da Virtuosa Benfeitoria, que foi escrita em 1418, já porque o cronista, além da Crónica da Tomada de Ceuta, aproveitou a famosa imagem do círculo, falsamente atribuída a Hermes, na Crónica dos Feitos de Guiné (cap. 74) e na Crónica do Conde D. Pedro de Meneses (p. I, cap. II).

2.° — É legítimo supor que sobre a base de apontamentos, fornecidos pelo próprio orador, por um dos infantes que foram armados cavaleiros ou por qualquer outro circunstante, Zurara compôs o sermão, em cujos períodos é hoje difícil, senão impossível, discriminar a redação original e primitiva do confessor e conselheiro de D. João I.

Dois factos corroboram esta maneira de ver.

É o primeiro, o manifesto desrespeito, senão completa ignorância, das regras então vigentes, e como que imperativas, da arte de pregar—, coisas inconcebíveis num sacerdote letrado como Fr. João Xira. O sermão que consideramos não tem protema, e o tema, sempre constituído, sem exceção, por um texto da Escritura destinado a servir, a um tempo, de ponto de partida e de fundamento à prédica, apresenta-se como que desfigurado laicamente sob a vestidura de uma dissertação erudita e retórica acerca da glória e da honra: “Ho meestre preegou alli huüa preegaçam com muitas autoridades da Samta escriptura, aprouando ho gramde seruiço que nosso Senhor Deos rrecebera em aquelle feito, dizemdo que todos poderiam dereitamente dizer o seu tema. s. que em Cepta era toda gloria e homrra”.

É o segundo a transcrição literal no mesmo sermão do seguinte passo do Livro dos Ofícios, na tradução do infante D. Pedro:

Cronica da Tomada de Ceota:

Cap. XCVI

...Cobrastes ajmda a segumda maneira de gloria, que he a homrra deste mundo, cuja perfeiçam esta naquele decorum, a que os Gregos disseram prepain, que quer dizer em nossa dereita linguagem, fremosura das obras...

Livro dos Oficios de Marco Tullio Ciceram

o qual tornou em linguagem o

Ifante D. Pedro, Duque de Coimbra:

(P. 57 da ed. J. M. Piel, Coimbra, 1948)

..E em este logar perteece de sse falar daquello que em latim se chama “decorum” e em grego “prepom”. E em esta linguagem lhe podemos dizer “ fremosura das obras”.

Não se compreende tão perfeita correspondência literal num sermão que o autor teve de compor apressadamente, apenas com os recursos da memória e com os dotes da improvisão, nas horas frementes de entusiasmo que se seguiram à conquista de Ceuta, além de que não é crível que já então o infante D. Pedro tivesse feito a tradução da obra de Cícero.

Pelo contrário, compreende-se facilmente que Zurara tivesse cometido o “plágio” muitos anos depois, ao acomodar ao seu gosto o rascunho ou apontamentos do “sermão” de Fr. João Xira, no recato do escritório, tendo à beira livros que sabemos ter lido e utilizado e dando largas à reiterada simpatia pela famosa imagem do círculo.

Não lho vedava a escrupulosidade da consciência intelectual, então muito branda e complacente, e até lho impunha, de certo modo, a afeição do seu espírito à arte oratória, de cuja “arte” como disse D. Afonso V na conhecida carta ao seu cronista, de 27 de Novembro de 1467, Zurara era “assás ensinado e a natureza vos deu mui gram parte dela”.


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Vamos corrigir esse problema